Domingo, Setembro 27, 2009

Ontem foi noite de...

Concerto comemorativo 30 anos de Xutos & Pontapés @ Restelo

O meu dia de reflexão terminou ao ritmo da mítica banda portuguesa, num estádio a transbordar de gente de todo o género e feitio, mas com um denominador comum: muito apreço pela música e pelo percurso dos Xutos. Afinal, trinta anos é muita coisa e músicos e público merecem uma celebração à altura, mesmo para quem já perdeu a conta aos concertos da banda a que já assistiu por esse Portugal fora.

O atraso de hora e meia desmotivava alguns dos presentes (eu incluída!), mas mal se avistou os músicos num dos topos do estádio a energia voltou a dar sinais de si. Enquanto atravessavam o estádio por entre a multidão (corajosos!), os quase 40 mil presentes seguiam-nos com os olhos, ofuscados com o holofote das estrelas. Chegados ao palco, a festa logo começou e só 3 horas depois haveria de terminar.

Não sou o único foi dos primeiros temas a ouvir-se e, como é um dos que mais gosto - talvez por ser aquele que há mais tempo habita a minha memória musical - entoei-o com alguma emoção, junatamente com a multidão. Mais a frente haveria de ser a voz de Camané a encantar-me, cantando "o Homem do Leme" mais sentido que já ouvi (perdoem-me os seus cantautores!).

O rock mais pesado estava guardado para o fim e a Chuva Dissolvente (a minha favorita), os Contentores (a minha segunda favorita), À minha maneira, Ai se ele cai, Casinha e Maria, fecharam a noite com chave de ouro, entre um vai-vem de encores e um público insaciável. Ah, e fogo de artíficio, que a ocasião não era para menos. Que venham mais 30!

* 1ª e 3ª foto de José Sena Goulão;

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Recomenda-se


Este é o segundo livro de Carlos Ruiz Zafón que leio. Não é uma decepção, mas deixa um bocadinho a desejar tendo em conta que a pretensão do autor era a de escrever uma espécie de sequela dessa obra prima que é a "Sombra do Vento", que aqui já recomendei. O cenário é o mesmo, a Barcelona (ou a Cidade dos Malditos, como o narrador e personagem principal a denomina) dos anos 20/30, aguardando o eclodir da Guerra Civil. O enredo volta a dividir-se entre um escritor, um livro e um amor impossível. À semelhança daquele best seller, a escrita de Zafón prende qualquer leitor desde a primeira linha até à ultima. Isso voltou-me a acontecer, pese embora a determinada altura tenha constatado que enredo deixou de me cativar. Parece que o autor se embrulhou em tanto pormenor, tanto personagem, tanto mistério que acabou, ele próprio, por não conseguir descortinar o desfecho da história.
Claro que o poder descritivo de Zafón, os diálogos deliciosos que constrói e os momentos reflexivos a que nos incita justificam a leitura deste seu "Jogo do Anjo", mas fica-se com a sensação que, por muito que se esforce, nada superará a "Sombra do Vento".

Um dos excertos mais interessantes:

"A inveja é a religião dos medíocres. Reconforta-os, responde às inquietações que os roem por dentro e, em sua última análise, lhes apodrece a alma e lhes permite justificar a sua mesquinhez e cobiça a ponto de acreditarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão apenas aos infelizes como eles, que passam pela vida sem deixar outra marca que não seja a das suas mal amanhadas tentativas de amesquinhar os outros e de excluir, se possível for, destruir, aqueles que, pelo simples facto de existirem e de serem quem são, põem em evidência a sua pobreza de espírito, mente e entranhas. Bem-aventurado aquele a quem os cretinos ladram, porque a sua alma nunca lhes pertencerá.
- Ámen – declarava Don Basilio.- Se você não tivesse nascido rico, devia ter sido padre. Ou revolucionário. Com sermões assim até um bispo se prostra contrito."

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Um bom pretexto para beber mais água


Na última visita à Luz reparei que o meu estádio está coberto de anúncios onde aparecem garrafas com um misterioso líquido vermelho (encarnado, para os leitores mais queques). Já há uns dias tinha visto umas garrafas semelhantes no expositor de um café. Curiosa que sou, descobri que o líquido em causa não é senão água multi-vitaminada importada da cidade fashion, New York city, está claro. Estas águas surgiram em 1996 - como? - espreitem aqui.
Consta que há seis sabores - cada um mais exótico que o outro - e que cada um deles tem os seus efeitos. Há águas apropriadas a cada momento do dia, consoante as nossas necessidades - do pós-noitada à recarga de baterias a meio do dia, para as manhãs pardacentas e para os fins de tarde stressantes. Parece que previram todos aqueles cenários em que precisamos de dar cor ao nosso dia. Junte-se a isso a imagem apelativa que, com certeza, vai virar moda. O que não é nada apelativo é o preço, enfim, é sabido que estar na moda sai carote! Eu cá ainda não experimentei, mas já me deliciei com o site oficial da marca que é divertidíssimo.

Terça-feira, Setembro 22, 2009

Recomenda-se

Y, de Bebe

Eu já suspirava por um disco desta espanhola há uns bons tempos. O primeiro é de 2004, chama-se Pafuera Telarañas e, de tanto o ouvir, está gasto. Bebe arrecadou com ele uma imensidão de prémios e consagrou-se artista revelação nos Grammy Latinos. Agora está de novo nomeada para estes prémios, desta feita para a melhor canção "Me Fue" e melhor videoclip.

Com este Y. (lê-se «i punto»), Bebe volta a trazer consigo uma mescla de sons. Há tons de melancolia que tão bem caem na banda sonora daqueles dias mais cinzentos. Entre um e outro tema vamos descobrindo também toques de reggae, um rock a que se chama «primitivo» ou será pop minimalista? As sonoridades várias não são de fácil catalogar. Fácil é depreender que em cada música Bebe põe muito de si, muita sensualidade, emoção e alguma mágoa. É a vida cantada com uma voz rouca daquelas que dificilmente saem do ouvido.

A ouvir, aqui.

Domingo, Setembro 20, 2009

E viva o salto alto!

Há sempre alguém que quando me vê em cima de uns sapatos a rondar os 12cm de altura me pergunta «como é que aguento». Como se andar nas alturas fosse um sacrifício. A resposta é sempre a mesma: para além de ter qualquer coisa equivalente a um MBA em salto altos, hoje em dia os sapatos de salto alto são tão ou mais confortáveis que os demais. Aliás, desconfio que cada vez que ponho uns ténis (ou sapatilhas, para os que embirram com o vocábulo) ganho mais bolhas e feridas no pé do que se corresse a meia-maratona com uns Loubotin calçados.

Já não bastava ter que gramar com esses tais que questionam o tamanho do meu salto como se disso dependesse o futuro do país, agora há por aí um verdadeiro lobby contra os sapatos altos. Quase que podia jurar que os seus mentores são homens baixos cheios de preconceitos ou então mulheres que não se equilibram em cima de uns sapatos desses e, cheias de inveja das demais, tudo fazem para abolir esse pressuposto de qualquer guarda-roupa feminino.

E então não é que agora há sindicatos que - nada mais tendo que fazer, está visto! - se lembraram de lutar pela "abolição do salto alto"?! Alegam que as mulheres são vítimas dos saltos altos, que a elegância é um requisito em muitas profissões, que o tacão é imposto às mulheres e que isso as prejudica. Por amor de Deus. Então mas ainda há alguém que acredite que a elegância de uma mulher está dependente de uns sapatos de salto alto? Se há, então façam o favor de espreitar a primeira-dama francesa e constatem como ela é sempre a mais elegante, mesmo quando tem os pezinhos enfiados numas sabrinas (Chanel, é certo...)...

Vamos lá ver uma coisa: uns sapatos de salto alto dão-nos um outro andar, alguma postura e colocam-nos lado-a-lado com alguns homens (eu que o diga!), mas estão longe de ser conditio sine qua non de elegância! Além do mais, não tenho memória de que se obrigue alguém a andar de salto alto vertiginoso para que possa exercer a sua função... Usar salto alto está ao critério das trabalhadoras e o dress code de uma empresa pode passar por muita coisa, mas não passa, de certezinha, por aí. Por isso, deixem-se de tretas e, sobretudo, deixem de meter o nariz em assuntos femininos e pessoais. Desfrutar, ou não, dessa dádiva que é o sapato de salto alto está na mão (e no pé) de cada mulher.

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

O poder de um sorriso

E não é que se lembraram de fazer um estudo sobre o impacto da apresentação física dos trabalhadores na marca que representam? E não é que, na área da Banca, a instituição com melhores resultados foi precisamente aquela em que trabalho? Pese embora não tenha, actualmente, contacto directo com os clientes, reconheço que esta notícia me encheu o ego. E não vale a pena ser redutor e simplista, gerando controvérsia quanto àquilo que efectivamente importa quando se recruta alguém. O que se reflecte naqueles números não é a carinha laroca ou o corpo 86-60-86. É antes a atitude, a postura de um trabalhador quando veste a camisola e o quanto isso pode reflectir-se em prol da marca que representa. Já dizia alguém que o sorriso é a linguagem dos inteligentes. Pois bem, ao que parece, o sorriso, a atitude e o modo de vestir podem bem fazer a diferença na escolha de uma instituição bancária. Caso para dizer que um sorriso pode bem valer milhões...

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Odeio sushi


Pronto, já disse. E desta forma acabo de deitar por água abaixo qualquer pretensão que pudesse ter quanto a uma hipotética ascensão social. É que sushi é sinónimo de chic, é light, é saudável e toda a gente gosta de dizer que almoçou sushi e sashimi com a mesma entoação que eu gosto de dizer que fui ao rodízio e comi até mais não. Enfim, idiossincrasias.
Pode fazer bem, pode até ser 'bem', mas a mim sempre me fez muita confusão a pele do peixe, as algas, as ovas e afins, quanto mais crus! E depois aquele arroz avinagrado, brgrgr. Mas não se tome a parte pelo todo, que eu muita coisa provei pelo país do Sol Nascente e num japonês encontro alguns pratos que gosto, da tempura às espetadinhas, às sopas e grelhados. Ah, e o saké, pois claro. Só aqueles rolinhos nauseabundos é que dispenso, logo esses, que tanto estilo dão a quem os consegue sustentar entre dois pauzinhos e levá-los à boca de uma só vez. Por uma vez na vida não me sinto mal por estar totalmente démodé.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

Para ti ou... para mim?


De certeza que não sou a única pessoa a quem acontece isto: quando quero oferecer alguma coisa a determinada pessoa e descubro aquela prenda que «é a cara dela/dele», fico tão orgulhosa com o achado que daí em diante - até ao dia em que a ofereço - desembrulho-a e embrulho-a num estranho (e exaustivo) ritual. Olho-a com um misto de orgulho e cobiça. E chego até (imagine-se!) a ponderar em ficar com ela para mim.

Só tenho uma explicação para isto. Deve-se, com certeza, ao facto de sempre procurar oferecer uma coisa que vá de encontro ao gosto da pessoa, sem nunca fugir ao meu. Para mim é impensável oferecer a alguém uma coisa que abomine, mesmo que essa coisa seja desejada pela outra pessoa. É por isso que o meu querido namorado bem pode suspirar pela Playstation3, que eu não vou canalizar metade do meu parco vencimento para comprar um exemplar desse aparelho viciante e pouco (nada!) pedagógico.

Vem tudo isto a propósito do jantar de anos que tenho mais logo. Estou farta de me babar sob a prenda que comprei à aniversariante e já ponderei ficar com ela para aí uma quinhentas vezes. Nada mais, nada menos, que este estojo com duas canecas (e colheres!) estampados com desenhos de Roy Lichtenstein. É que se a Pop Art vai bem com a destinatária do estojo, comigo também vai...

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

Recomenda-se

Matisse 1917 -1941 @ Museu Thyssen Bornesmisza

O francês Henri Matisse não figura na minha lista de preferências. Contudo, não só foi o pintor francês mais revelante do séc. XX como marcou indelevelmente a arte da sua época. O Museu Thyssen resolveu reunir obras respeitantes a um dos três grandes períodos nos quais se pode dividir a arte de Matisse, centrando-se no período intermédio marcado pelo fim da 1.ª grande guerra quando já se adivinhava uma segunda..., correspondendo ao período temporal de 1917-1941.

Pese embora seja das mais famosas obras de Matisse - quase sempre estampada na capa dos livros que versam sobre o pintor - a trilogia representada na foto acima não marca presença nas salas do Thyssen. Confesso que estávamos à espera de mais. De mais obras, pois claro. Sucede que além da exposição estar confinada a uma determinada fase do pintor - o que já por si condiciona a escolha - é compreensível que seja difícil reunir um grande número de obras do pintor, uma vez que fora as colecções particulares, as obras de Matisse encontram-se dispersas por mais de uma centena de museus espalhados pelo mundo, a maior parte nos Estados Unidos, mas também em Londres, São Petersburgo, Camberra, de São Paulo a Zurique, Bergamo, Nice, Copenhaga e tantas outras cidades.

De todo o modo, o esforço do Thyssen vale bem a pena, pois condensa algumas das obras mais significantes do pintor e, às vezes, escultor. As cores fortes predominam na maioria das telas que pintou naquele período e a figura feminina está quase sempre presente naqueles seus quadros. O conjunto que o Museu ali agregou está patente até ao próximo dia 20, sendo que na eventualidade de não poder dar um pulo até Madrid, tem sempre a possibilidade de fazer a visita virtual, aqui (canto superior direito).

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Polónia VII

No país de Chopin, ecoa música por todo o lado. Não faltam concertos de música clássica, em jardins ou igrejas, gratuitos ou nem tanto. Num fim de tarde ameno aproveitámos um desses concertos e pudemos escutar várias composições de Chopin interpretadas por cinco jovens pianistas de origens várias (russas, ucranianas e por aí fora).


Mas nem só de música clássica se vive por ali. Há grupos ou solitários músicos a tocar para os trauseuntes, a troco de uns minutos de atenção e, com sorte, um punhado de moedas. Junto à Barbacã de Cracóvia um tradicional grupo de folclore polaco animava aquele espaço com canções típicas, quiçá mazurcas e polcas.

Já no centro de Varsóvia meia dúzia de adolescentes improvisavam música sentados num banco mesmo em frente ao ministério da Cultura. Curioso.

Altamente

O filme faz jus ao título. Era dos filmes que mais ansiava ver e as altas expectativas não se frustaram. A Pixar faz boa animação e a prova disso é o sucesso deste Up, Altamente! que na sua versão 3D ainda é mais divertido. Os primeiros quinze minutos do filme são de uma ternura que derrete o mais rijo dos corações. O velho Carl Fredricksen tem aquele feitio de velho resmungão mas no fundo é um amor de pessoa. Aos 78 anos embarca na aventura da sua vida e a ele junta-se o petiz Russel, o labrador Dug, o passarão Kevin e um sem fim de personagens divertidíssimos que fazem as delícias de crianças e adultos como eu! Up é a prova de que ainda se faz boa animação infantil, com sentido pedagógico e sem excessos de vilões, armas e afins. Um filme amorosíssimo e perfeito para soltar aquelas gargalhadas que noutros contextos nos causam embaraço.

Terça-feira, Setembro 08, 2009

Colgando en tus manos

Uma ida à vizinha Espanha tem outro sabor quando se sintoniza a viagem com as rádios locais, da Cadena 100 à 40 Principales, da Kiss Fm à Cadena Ser. Dá sempre para nos pormos a par da música que se faz por aqueles lados, que é bem melhor do que aquilo que dela se diz. E assim vibramos ao som de El Canto del Loco ou de La Oreja de Van Gogh, recordamos os hinos de Chambao, escutamos o último single de Pereza, dançamos ao som cigano de Melendi ou derretemo-nos ao som das lamechices de Bisbal ou Bustamante. Claro que a cada viagem há sempre uma música que nos marca mais, normalmente o êxito do momento. E a música que desta feita ouvimos até à exaustão é a do vídeo acima. Um dueto do venezuelano Carlos Baute com a madrileña Marta Sanchéz, intitulado "Colgando en tus manos" que merece e bem o sucesso. E não é que a música não me sai da cabeça?! Oxalá chegue às rádios portuguesas.

Segunda-feira, Setembro 07, 2009

Por tierras de nuestros hermanos...

Afinal, não houve tempo para a Gran Vía, a Preciados, a Calle Princesa e por aí fora, mas mesmo sem compras e outras perdições femininas, não deixou de ser um fim de semana em cheio. Houve tempo para revisitar o Thyssen e apreciar a exposição temporária dedicada ao francês Henri Matisse e, fora da capital, conhecer dois pontos turísticos que se dizem imperdíveis. El Escorial e o Valle de los Caídos. O primeiro é um enorme complexo situado em San Lorenzo del Escorial, a 50 km de Madrid, mandado construir pelo Rei Filipe II de Espanha em meados do séc. XVI e que conta não só com o Palácio da realeza mas também com uma Basílica, um Mosteiro, museus e uma espantosa Biblioteca.


Rodeados por um verde que impressiona (a Serra de Guadarrama, de que aqui já falei) os edifícios formam um conjunto imponente. Lá dentro vale a pena visitar tudo quanto for possível: do apartamento do Rei às enormes salas decoradas com quadros das suas colecções (sendo que as de maior interesse há muito rumaram até ao Prado), da Basílica ao Panteão, no qual moram praticamente todos os reis de Espanha. A Biblioteca, essa, é imperdível. Um sem fim de livros (cerca de 40.000) em tom dourado ocupam 56 móveis ao longo de uma comprida sala cujo tecto repleto de frescos é de se observar com atenção - se o pescoço deixar!

A cerca de 10km de El Escorial encontra-se outra obra imponente perdida no meio do verde. É o Valle de los Caídos, um monumento construído por ordem de Franco em memória dos caídos na guerra civil. A Basílica e a cruz de 150 metros que a encima são ainda hoje uma obra polémica. Embora abençoado pelo Papa João Paulo II, há quem não esqueça que o Valle dos los Caídos é um projecto pessoal de Franco, que ali jaz logo atrás do altar-mor da Basílica. A majestosa construção escavada ao longo da rocha impõe respeito. A nave central, de largas proporções, está ladeada de enormes tapeçarias representando várias cenas do livro do Apocalipse. Ao fundo, a enorme cúpula (42 m) reproduz em mosaico uma outra cena bíblica. Junto ao altar-mor encontra-se a lápide branca de Francisco Franco e, do lado oposto, a de [Antonio Jose] Primo de Rivera (não o ditador, antes o seu filho, herói fascista). Com mais ou menos apreço por estes dois nomes da história de Espanha, parece-me que a visita ao monumento vale sobretudo pela magnífica obra que num sítio tão ermo se fez.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

Volto já

Ontem foi noite de...

A Dança dos Paroxismos @ Motelx, Cinema S. Jorge

O Motelx é o Fantas cá do sítio, com a diferença de vinte cinco anos de idade e uma outra distância que é aquela que vai do cinema fantástico ao cinema de terror. Bem vistas as coisas, talvez tenham pouco em comum, mas [felizmente] ambos surgem no panorama nacional divulgando e oferecendo aos públicos uma alternativa ao mainstream.

Não sendo muito dada a terror, ontem alguém me aliciou a ir até ao S. Jorge ver "A Dança dos Paroxismos", filme português datado de 1929 que, não sendo propriamente catalogável na secção "terror", se enquadra perfeitamente no festival. A pesquisa que a organização do Motelx levou a cabo acabou por concluiur que o terror em Portugal fez-se através do recurso a um riquíssimo património de lendas e narrativas. Foi exactamente o caso do filme de ontem, cujo enredo se baseava numa lenda (ainda que nórdica), tendo o novato (18 anos) realizador (e protagonista)Jorge Brum do Canto, bebido inspiração do poema "Les Elfes" de Leconte de Lisle.

Tendo em conta a idade do seu realizador e a época na qual foi rodado, o filme é uma agradável surpresa. Consta que por vontade do autor o filme não foi comercializado e durante 56 anos a sua existência fora ignorada, até que após uma emissão privada transitou para a Cinemateca Nacional, onde se encontra nos dias de hoje. João Bénard da Costa, saudoso director daquele organismo, terá dito o seguinte sobre o filme:

«Parnasianismo literário, decalques da estética do "ballet russo" e do "Théâtre d'avant-garde" e alguns laivos de futurismo combinam-se com o esteticismo bebido em L'Herbier e Delluc e tornam essa obra, muito mais do que um exercício de estilo, um dos exemplos mais curiosos do vanguardismo europeu de então.»

Eu diria o mesmo, ainda que num português bem mais parco. O filme está visual e estruturalmente muito interessante, característica complexa tendo em conta que se trata de um filme mudo e a preto e branco.
Ainda assim, o Motelx desafiou (e bem) Rita Redshoes e Legendary Tiger Man (vocalista do Wraygun) a compor uma banda sonora. Rita dedicou-se a um quase-piano e a guitarra ficou a cargo de Paulo Furtado. Foi vísivel o cuidado de ambos em coadunar cada conjunto de notas com cada conjunto de cena e por isso mereceram muitos aplausos no final.

A ideia de sessão-concerto, não sendo nova - confirme-se aqui, por ex. - é muito estimulante para um público que não conviveu com o cinema mudo e que hoje praticamente só se extasia com efeitos visuais e 3D.

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

São Martinho, meu amor

Não será a primeira vez, tampouco a última, que a maravilhosa Vila de São Martinho do Porto aparece por aqui. O seu belo entardecer já acompanhou não menos bonita poesia e já por aqui revelei todo o significado que para mim tem aquela baía e tudo quanto a rodeia. Hoje parece que há quem queira segregar esta Vila e anexá-la ao concelho das Caldas da Rainha. Nada tenho, obviamente, contra as Caldas, até porque sou natural de lá. Mas tudo tenho contra este movimento. É descabido e extemporâneo. E tudo o mais disse-o num artigo de opinião na edição de hoje de um jornal local - «Região de Cister». A haver interesse, podem lê-lo aqui já ao lado, no blog Ainda há Lodo no Cais e sob o título "Movimentos Cívicos: uma faca de dois gumes". Certo é que, do lado de cá ou do lado de lá, São Martinho será sempre amor meu .
* foto de Pedro Libório

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

Polónia VI

Com tanto para descobrir e em tão boa companhia, não foi difícil abstrair-me do meu quotidiano e do meu portugal fechado para férias no seu querido mês de agosto. Por uns dias nada ouvi sobre campanha eleitoral, taxas de ocupação do allgarve, escândalos ou misérias alheias. A isto sim, pode chamar-se «férias».

Ainda assim, houve uma coisa que escapou a este específico bloqueio mental para o qual estou programada sempre que vou de férias: a papelada que deixara em cima da secretária. É que já não bastava ter que me cruzar a cada esquina com uma sucursal da instituição bancária que me dá trabalho, entro num café em Cracóvia e sai-me isto:



Dois cabides com indicações para quatro cidades portuguesas (uma delas na qual trabalho) e outras duas cidades espanholas (uma delas onde estudei). Ainda tentei perceber se havia ali alguma relação com o nosso país, mas a empregada limitou-se a sorrir e a assentir quando lhe expliquei a razão pela qual fotografava cabides com tanto entusiasmo...

Terça-feira, Setembro 01, 2009

Polónia V

«The one who does not remember history is bound to live through it again», lê-se à entrada do primeiro bloco visitável em Auschwitz. Talvez seja por isso que os polacos não cairam na precipitação de destruir sem mais todo e qualquer vestígio da ocupação nazi e fizeram daquele trágico local um museu aberto a todos quantos queiram perceber até onde pode ir a crueldade humana.

O irónico "Arbeit macht frei" marca o início da visita. Do lado de lá do portão que hoje se mantém permanentemente aberto, há dezenas de blocos cujo interior receamos conhecer. Apenas três deles são visitáveis, sendo que um destes se mantém inalterado desde aqueles tempos. Os factos conhecemo-los bem, mas in loco o abanão é maior. A guia vai dando conta dos pormenores de malícia e damos por nós a (tentar) visualizar o cenário que nos descreve. Enchem-se os olhos de água e seca-se-nos a garganta. Inevitável.

Damos por nós a pensar que este é apenas um dos setes campos de concentração nazis que surgiram na Polónia. Birkenau, mesmo ali ao lado, é vinte cinco vezes maior que Auschwitz. A dimensão do horror que ali se viveu na década de 40 é-nos, por isso, díficil de calcular. Tudo quanto nos mostram - cinzas, sapatos, roupas, cabelo e bens pertencentes às vítimas - são apenas uma ínfima parte do que por ali passou.

Lá fora o dia azul permite-nos recuperar o fôlego e arranjar forças para retomar a visita. A última construção que visitamos é a claustrofóbica câmara de gás e respectivo crematório. No tecto mantém-se os tubos com orifícios pelos quais se difundia o gás. No chão, os carris denunciam o caminho que dali se fazia até aos fornos crematórios. Junto a estes há coroas de flores frescas que sobressaem no meio de toda aquela construção fria. Em Auschwitz, como em tantos outros locais trágicos da Polónia, não há quem deixe cair no esquecimento o Holocausto.

Termina a visita e procuramos algum alívio lá fora. Paira no ar um silêncio quase sagrado, apenas entrecortado pelas explicações dos outros guias. Os visitantes são muitos, destacando-se entre eles um grupo de judeus - como o da foto acima. Surpreende-nos a sua coragem. As árvores abanam levemente com a brisa amena que se faz sentir e o sol brilha com intensidade num céu pintado de tranquilidade. Custa a acreditar que aquele local ora tão sereno foi palco de tamanha tragédia. Hoje, apenas o arame farpado a toda a volta parece denunciar a tirania que assombrou Auschwitz.