Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

O vento

As árvores dobram-se e voltam a si. Insistem com as unhas ancoradas na terra para não perderem a morada. Para mais do que isso falta-lhes a força.
Pessoas a apertar casacos no peito.É sempre aí que apertam, com medo que fujam de lá as memórias penduradas por arames velhos. Já foram bons, falta-lhes a manutenção.
Arrumam os cabelos no ponto de partida para eles começarem de novo um improviso nervoso.
Os cães ladram uns com os outros, entendem-se como podem.
Há folhas a serem empurradas rua abaixo até adormecerem junto a uma parede, onde lhes acaba a imaginação.
Contentores do lixo tentam fugir às escondidas de quem os vê.
Os semáforos abanam a cabeça a quem lhes pergunta as regras.
Os pássaros arrumam as asas em ponto morto e deixam-se levar para onde não querem.
É o vento a gritar o que pode, a organizar ideias até lhe faltar o ar.
A coreografar a terra com passos largos.
E é sempre assim.
Desarruma-se o mundo para depois se orçamentar quanto custa desarrumá-lo no sítio.
Faltarão coisas.
Mas as melhores nunca mudam de lugar.

plagiado d'aqui - Quem disse que um humorista não pode ser também poeta?

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Japão V

Kamakura foi capital do Japão no séc. XII, sendo que hoje é um dos destinos turísticos de eleição no país do sol nascente. O grande Buda (Kamakura Daibutsu) é uma das principais atracções da cidade, dado tratar-se de uma imponente estátua de bronze com cerca de 14 metros de altura, a segunda maior do Japão.

Igualmente imperdível é o Kenchoji Temple, o templo budista zen com maior relevância naquela região, marcante pela construção, pelos paradisíacos jardins e pelos crentes que por ali se demoram.

Ali fomos bem acolhidos, sempre com o sorriso do costume e direito a um chá a que o fim de tarde convidava. E assim provámos o verdadeiro chá verde, tipicamente servido numa malga. Claro que era notória a dissemelhança entre o nosso chá e aquela mistela verde (cheirava-me a ervas pisadas com um almofariz, a que se havia juntado água quente). Valeu o pauzinho de incenso para mudar de odores e incitar à espiritualidade... que chá, para mim, só de saquetas!

Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

se pudesse, amanhecia em ti a cada manhã, rodopiava contigo numa valsa sem fim e embalava-te com a prosa que verte de mim.
se pudesse, seria (sempre) assim.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Ontem foi noite de...

Nouvelle Vague @ Cine-Teatro de Alcobaça

Depois da Aula Magna e do Campo Pequeno, os franceses visitaram a minha cidade e, como não podia deixar de ser, foram muito bem recebidos. Um Cine-Teatro a rebentar pelas costuras aguardava um desfile de músicas que marcaram os anos 70, 80 e 90 pela voz e roupagem do mítico e insubstituível Gerald Toto e a candura e doçura que vive em Melanie Pain (na foto), acompanhados dos sempre assíduos Marc Collin e Olivier Libaux.
Bem, na verdade a maioria (ou, pelo menos, eu e a plateia do sexo masculino!) esperavam por duas ou três vocalistas... mas à menina cheia de graça bastava-lhe a companhia de Gerald Toto para tornar aquele concerto num momento muito especial. Os dois mostraram uma grande compatibilidade em palco e deram o seu melhor nas interpretações de New Order("Blue Monday") Joy Division ("Love will tear us apart") Depeche Mode ( com a minha favorita "Just cant get enough"), Dead Kennedys (com a arrojada "Too drunk to fuck") e por aí fora...
E ainda houve tempo para os solos de Gerald, com "Relax" e a divertida "Chocolate cake with cream and raspberry" a deixar-nos de água na boca por um bolinho de chocolate e por mais concertos destes!

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

Recomenda-se

Jacinta @ São Luiz

Os seis concertos agendados esgotaram - o que aliado à política dos convites se traduziu num Jardim de Inverno sobrelotado... (sim, chateia...) - e não era para menos. Jacinta encheu aquela sala informal de público, mas não só. À moldura humana juntou-se uma presença amorosa e uma voz poderosa que desconhecia. Pese embora o extenso e pomposo currículo de Jacinta, a cantora é de uma simplicidade que surpreende. Trata o público como se tratasse do seu círculo de amigos. Canta, conversa, ri, recorda, confessa, comunica a cada gesto.

O saxofone e o piano juntam-se à sua voz e o jazz acontece. O cardápio anunciava temas dos anos 60, 70 e 80. Não se sabia é que os temas eram pop e que com o pop se pode fazer bom jazz. Começou com "How deep is your love" dos BeeGees, passou por Beach Boys com "Surfin' USA", depois um doce "My baby just cares about me" de Nina Simone. Houve também nova roupagem para temas de Bob Mcferrin, Beatles, James Brow e uma sentida apreciação a Stevie Wonder que, segundo Jacinta, tem muito talento escondido debaixo daquela capa de êxitos lamechas.

A noite terminou com o tema de Bob Marley que deu o mote a este projecto - "Songs of freedom". Jacinta abraçou o piano para fechar em grande e a sala inteirinha abraçou Jacinta no refrão, como que a agradecer pela agradável viagem revivalista que proporcionou.

No caso de se estarem a perguntar porque recomendo eu um espectáculo que se encontra esgotado, aqui vai a resposta: agendaram-se mais 3 noites extra para os próximos dias 12, 13 e 14. Plagiando um leitor assíduo deste blog: "É de ir!"