Terça-feira, Janeiro 27, 2009

Japão IV


Quioto é muito mais que uma cidade que empresta o nome a um protocolo ambiental. Está longe de ser uma cidade bonita, mas possui os mais belos templos que visitei por terras nipónicas. E verde, desse só existem sinais em redor da cidade, junto às montanhas que a emolduram... A cidade é triste e pardacenta, mas vale-lhe o património perdido em cada recanto. Dizem que possui mais de 2000 templos, uns ainda mejestosos, outros engolidos pela construção urbana.

O Kinkakuji Temple - o Templo Dourado - é com certeza a mais visitada de todas as atracções da cidade, pela impressionante cor dourada a reluzir no epicentro de um jardim zen, de águas límpidas e de um sossego que contagia.

Do outro lado da cidade e igualmente imperdível encontra-se o Kiyomizu-dera (nas fotos), que se ergue lá do alto, imponente. É também considerado património da Humanidade, a par do Templo Dourado. Muito movimentado quer por turistas, quer por locais, o colorido deste templo em claro constraste com a cidade faz-nos viver uma outra dimensão.

Por aqui cheira a incenso, ouvem-se preces e pássaros a chilrar, fazem-se vénias e gestos que não descortino, sonha-se ao por do sol, purificam-se as almas, disparam flashes sem fim, louva-se o deus do amor, perde-se a conta aos objectos religiosos e perdemo-nos junto às águas frias que correm por ali abaixo.

De volta ao centro da cidade rebenta a bolha de paz de que nos revestimos nos locais sagrados. Resta pouca arquitectura que se possa apreciar. À semelhança de Tóquio, há uma torre gigante a despontar da cidade, contrastando com a construção relativamente baixa da cidade. Mesmo em frente ergueu-se a futurista Kyoto Station, em aço e vidro, que não só destina apenas a servir as linhas ferroviárias e metropolitanas, albergando um hotel, um teatro, um centro comercial, uma espécie de casino, restaurantes e vários departamentos governamentais.

E é só por isso que Quioto sabe a pouco. Templos fora, pouco mais resta para apreciar. Claro que se a incursão se cingir ao património histórico-religioso o mais provável é que não haja tempo para descobrir todos os tesouros que há séculos por ali andam perdidos...

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

Japão III

2009 começou aqui. Nas áreas do Zojoji Temple, ali bem juntinho à Torre de Tóquio. Trata-se de um clone da Torre Eiffel mas com uns orgulhosos 333 metros, mais nove que aquela outra. A vista dali é soberba, com uma panorâmica 360º sobre a cidade sendo que, com um bocadinho de sorte, se avista o Monte Fuji e os Alpes japoneses. A 15 minutos da meia-noite as luzes da torre desligaram-se, para surpresa de muitos. E à hora certa uma nova iluminação da torre mais alta do Mundo recebia o novo ano, vigiando os milhares que a seus pés festejavam a data. Simultaneamente fazem-se lançar centenasde balões transparentes, a cujos fios se ataram os desejos de ano novo. Entretanto, soam os sinos inúmeras vezes, num ritual que pretende expiar os pecados. Curioso, divertido e... memorável!

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Japão II

Tal como previa, do outro lado do Mundo deixei-me perder (de amores) pela cultura nipónica. Excepção à gastronomia, que não me convenceu (um bem haja ao Hard Rock e ao McDonalds!) e que ao contrário do que cremos não se resume a peixe cru... De resto, no Japão tanto se respira História como se transpira modernidade e a mais do olfacto, os sentidos estão todos alerta, tal a intensidade com que ali se vive.

Tóquio dava um belo quadro de Kandinsky. De dia ou à noite, é uma verdadeira paleta de cores vibrantes. E um verdadeiro puzzle, onde os bairros mais típicos entrelaçam com as avenidas chiquérrimas (meninas, esqueçam NY, Milão ou Paris... Ginza é só o bairro mais IN do mundo!!!), onde os templos fazem frente aos arranha-céus, onde enormes jardins convivem com os imensuráveis centros político-financeiros, onde a espiritualidade paira no ar e sobrevive ao exagero, à sobreinformação, à overdose do quotidiano...

A cidade é um mundo e o Mundo inteiro cabe naquela cidade. Há gente de todo o lado, por todo o lado. Há um ritmo frenético que apetece adoptar, mas que o corpo e a mente ocidental automaticamente rejeita... Dá-me impressão que há quem não durma para poder desfrutar da cidade e por isso o cenário nas ruas não muda muito, sejam 4 da tarde ou 4 da madrugada. À noite o ruído acentua-se em alguns bairros (Shibuya, Shinjuku e Roppongi, imperdíveis!), os néons brilham e encandeiam, a publicidade sonora e visual hipnotiza e dá ideia que vive mais gente ali nas ruas, que nos imensos prédios.

E no meio de tanto bulício há aqueles recantos de espiritualidade a cada esquina. Um jardim entrosado entre dois quarteirões, uma estátua perdida, um templo aqui, outro acolá. Em Asakusa perdemo-nos pelo Senso-ji, um imponente templo que movimenta à sua volta milhares, entre as ruas estreitas, o comércio turístico-religioso (nada a ver com Fátima, valha-nos isso), meninas, moças e anciãs trajadas de quimono (e não é que aquilo leva 3h a vestir??!!).

O templo foi reconstruído após bombardeamentos na II Grande Guerra e, mercê disso e do brio deles, tudo ali está em óptimo estado de conservação. Entramos por um sumptuoso portão, admiramos o esbelto pagode e, embevecidos, demoramo-nos no templo. E se nos vários edíficios as gentes alimentam o espírito, cá fora, espalhadas pelos jardins do templo há pequenas barraquinhas a vender comida e guloseimas para todos os gostos. Da ocidental maçaroca de milho à comida oriental, passando por frutas caramelizadas, algodão doce, rebuçados, ali alimenta-se simultaneamente o corpo e o espírito a qualquer hora.

E depois há o Parque Ueno, uma espécie de Central Park que dizem ser imperdível na Primavera, quando as cerejeiras (àrvore pela qual os japoneses têm um certo fascínio!) florescem e emolduram aquela zona. É também por lá que florescem os Museus, com destaque para o Museu Nacional de Tóquio, recheado de preciosidades, e o Museu Nacional de Arte Ocidental, bem recheado com Van Gogh, Monet, Manet, Signac (com o maravilhoso "Porto de St. Tropez"), Gauguin, Rembrandt, Rubens, Rodin, Cézanne, etc etc etc e, no que toca a escultura, por lá mora "O beijo" de Rodin (em bronze).

E por falar em beijo, confirma-se que ali "o amor é um lugar estranho" (tradução portuguesa do filme "Lost in Translation"), onde a etiqueta e um certo recato dão lugar a uma estranha forma de vida. Deixou-me perplexa o plano das relações humanas, onde a simpatia e o brio abundam (particularmente, no comércio e serviços), sendo que, em contraste e mercê da convenção social, são um pouco frios entre si. Demonstrar afecto em público por alguém não é nem comum, nem agradável, uma vez que um simples beijo ou um abraço em público embaraça os próprios e os próximos.

Tóquio é, em si, um contraste, um verdadeiro melting pot, um mundo onde não nos sentimos a mais, mas também onde sentimos que, aqui, vivemos com muito menos. Menos cor, menos brilho nos olhos, menos instinto cultural, menos ordem e respeito pelo próximo e (muito, muito) menos poder económico (a recessão por lá ainda não passa de um mero conceito económico, por muito que os jornais digam outra coisa!!!).

Segunda-feira, Janeiro 12, 2009

Japão I


Estou de volta. Viva e bem de saúde. (Ah, e felícissima!) E por falar em saúde, o que mais me custou nesta viagem não foi a mudança de ares, nem o vento gélido, tampouco a poluição, a gastronomia ou mesmo as poucas horas de descanso. O que mais me custou foi mesmo a viagem de avião. Mas não foi pela sua duração (15h no conjunto não é agradável, mas há coisas que valem bem o sacrificio...), nem pela comida (ainda assim valeu os chocolates de emergência na bagagem de mão), nem pela turbulência, nem pelo jet lag, nada.
O pior de tudo foi tão somente a excessiva exposição ao ar condicionado, que me deixa olhos irritados e narinas secas! Bem que me tinha prevenido de antemão com um frasco de soro fisiológico de tamanho máximo permitido a bordo - 100ml - e levava-o no sagrado saco de plástico transparante com fecho zip - mercê da mariquice das normas se segurança - como se se tratasse do mais valioso dos tesouros.
E pronto, foi uma viagem inteira para lá e outra para cá a esguichar o líquido milagroso ora na narina, ora na vista. O cenário não é propriamente agradável e ambas as vizinhas do lado passaram metade do tempo vidradas neste meu ritual, sabe-se lá a tecer que tipo de considerações.
Chegada cá, penso em procurar outro tipo de soluções para este sintoma desconfortável. Pois bem, uma pessoa faz uma pesquisa no abençoado google com a expressão "narinas secas" e zás, catrapás, o que me sai é logo isto:
"Portal farmácia: sinais para identificar um usuário de drogas" ... ...

Sim,... no comments!