
Este é o segundo livro de Carlos Ruiz Zafón que leio. Não é uma decepção, mas deixa um bocadinho a desejar tendo em conta que a pretensão do autor era a de escrever uma espécie de sequela dessa obra prima que é a "Sombra do Vento", que aqui já recomendei. O cenário é o mesmo, a Barcelona (ou a Cidade dos Malditos, como o narrador e personagem principal a denomina) dos anos 20/30, aguardando o eclodir da Guerra Civil. O enredo volta a dividir-se entre um escritor, um livro e um amor impossível. À semelhança daquele best seller, a escrita de Zafón prende qualquer leitor desde a primeira linha até à ultima. Isso voltou-me a acontecer, pese embora a determinada altura tenha constatado que enredo deixou de me cativar. Parece que o autor se embrulhou em tanto pormenor, tanto personagem, tanto mistério que acabou, ele próprio, por não conseguir descortinar o desfecho da história.
Claro que o poder descritivo de Zafón, os diálogos deliciosos que constrói e os momentos reflexivos a que nos incita justificam a leitura deste seu "Jogo do Anjo", mas fica-se com a sensação que, por muito que se esforce, nada superará a "Sombra do Vento".
Um dos excertos mais interessantes:
"A inveja é a religião dos medíocres. Reconforta-os, responde às inquietações que os roem por dentro e, em sua última análise, lhes apodrece a alma e lhes permite justificar a sua mesquinhez e cobiça a ponto de acreditarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão apenas aos infelizes como eles, que passam pela vida sem deixar outra marca que não seja a das suas mal amanhadas tentativas de amesquinhar os outros e de excluir, se possível for, destruir, aqueles que, pelo simples facto de existirem e de serem quem são, põem em evidência a sua pobreza de espírito, mente e entranhas. Bem-aventurado aquele a quem os cretinos ladram, porque a sua alma nunca lhes pertencerá.
- Ámen – declarava Don Basilio.- Se você não tivesse nascido rico, devia ter sido padre. Ou revolucionário. Com sermões assim até um bispo se prostra contrito."
3 comentários:
Gostei muito deste Livro... Mas partilho a mesma opinião que tu. O primeiro é uma obra prima!
Eu subscrevo também...
Gostei muito deste mas o "Sombra do Vento" é de facto fantástico.
Pelo que tenho lido por aí, a "Sombra do Vento" está já na calha das próximas leituras. Isto depois de deglutir um sempre exigente Lobo Antunes.
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