Quinta-feira, Agosto 28, 2008

Baile de Outono


Lá fora a tarde cai com vagar e o sol põe-se num ritual silencioso. Já nem se ouve o silvar do vento que provoca arrepios na espinha. Dizem por aqui que agora que a nortada se foi, o outono chegou. Soa a contrasenso: quando o vento frio do norte morre, nasce um Outono que põe fim ao Verão? ... Se assim for, as árvores hirtas e as folhas num sossego que rareia, não enganam. O azul de um céu que, lá ao fundo, tende a acinzentar. Certo, é que já se respira uma certa melancolia, como quem sofre por lhe faltar a ventania. É o baile de outono, aqui numa dança inerte que entristece a cada passo, num andamento lento, marchado e numa cadência que inveja às restantes estações.

Segunda-feira, Agosto 25, 2008

Um domingo diferente

Estádio José Gomes, 24 Agosto 2008

Juro. Juro que troquei uma solarenga tarde na piscina por uma experiência única ali para os lados da Reboleira. Os tratados de amor têm destas coisas: por vezes cabe prescindir da dolce vita e alinhar com a outra metade em determinadas aventuras. Quis o destino (e o Gonçalo!) que neste querido domingo de agosto me deslocasse até ao Estádio José Gomes, sito na afamada Reboleira, para assistir ao duelo entre a "Estrela" lá do sítio e a "Briosa" de Coimbra.

Não fazendo a coisa por menos - que o momento era histórico - toca a trocar bons assentos pelo lugarzinho ali mesmo ao lado dos verdadeiros adeptos. Primeira impressão? O estádio do Sr. José Gomes já precisava de intervenção. É que já nem refilo da limpeza das cadeiras - que eu presumo nunca terem visto água que não a da chuva - mas antes do plástico a desfazer-se ao roçar dos traseiros. Enfim, na Reboleira quer-me parecer que isto são males menores...

O sol queimava a trinta graus quando o apito soa a dar início à partida. Antes, umas patéticas cheerleaders abanavam-se ao som de um qualquer hit e esfalfavam-se em animar as hostes. Em vão, que ali a emoção só chega com os onzes em campo. Mal se sabia que o tédio era a palavra de ordem deste duelo da Liga Sagres que, reclamava um adepto, mais parecia a Vitalis. E por falar em água, um estranho trio vendia-la pelas bancadas com um pregão a fazer lembrar as feiras. Um outro oferecia queijadas de Sintra a preço do ouro e pipocas coloridas a transbordar de corantes que os miúdos trincavam com a fúria de quem trucida um inimigo.

Enquanto as claques entoam hinos e os habituais allez, alezz, entretive-me a encetar uma espécie de estudo sociológico. O local, acreditem, era perfeito. Havia espectadores para todas as idades e uma clara predominância do sexo masculino, embora de quando em quando se ouvisse o grito de guerra de uma mulher a torcer pelo clube do coração. Havia trupes acicatadas e velhos de nervos em franja. Um senhor de blazer (!!) suava em bica ainda que a Ypsílon em riste lhe protegesse a cara de um sol impiedoso. Dois casais respiravam (aparente) tranquilidade. Alguns miúdos acompanhavam os pais nos insultos e noutra bancada uma família pulava e gritava numa sincronia invejável.

Ao intervalo, O-O. Trocam-se palpites entre uns cigarros e uns goles de água. Os mais audazes arriscam uma bifana elaborada num bar que presumo nunca ter sido visitado pela ASAE. No campo é apresentado um novo jogador da casa mas ninguém lhes presta muita atenção. Entretanto a música de fundo vai-se esfumando, os plantéis regressam ao relvado de um verde carcomido pelo sol e tem início a segunda parte.

À minha frente, voilá, o melhor locutor que ali o ouvido podia alcançar. "Vasquinho, sabes o que é uma mão?", reclamava perante a esporádica cegueira do árbitro. E prosseguia: "Ó nove, tu és má-rês!". E a mais repetida: "Isto é passe que se faça?!", bramia. E no entretanto, golo. Não, golooooooooooooooooooooooo, como nos relatos da rádio. Um golo anunciado pelo microfone quase um minuto depois, por um locutor da casa a dar mostras de enfado.

Festeja a equipa tricolor e ouve-se na bancada um elogio ao guarda-redes: "Ó Peskovic, tu não pescas nada!". Talvez tenha surtido efeito, que a partir daí não entrou mais nenhuma bola na baliza dos estudantes. Mas o esférico também não penetrou a baliza adversária... e no final da partida, a desilusão cobre a bancada a preto e branco.

Compreende-se. Uma deslocação ao submundo numa quente tarde de Agosto é, já por si, uma inegável prova de amor à camisola. E se a isto acrescer uma insonsa partida que resulta numa derrota...

Já no que me toca, e como resulta fácil de entender, uma ida à Reboleira num dos poucos dias de descanso de que posso usufruir é sacrifício que revela o quão imensurável é a minha benevolência e a minha dedicação. E a tudo o exposto acresce que vesti a rigor (preto e branco) e nem por um segundo perdi a postura que se requer a uma adepta! Quem me visse, nem diria que na noite anterior assisti a um concerto num pequeno paraíso perdido ali para os algarves, lado a lado com a diva Catherine Deneuve!

Quinta-feira, Agosto 21, 2008

Hoje é noite de...

As Bodas de Fígaro @ Palácio Condes Castro Guimarães
*
Azeitonas @ Casino Estoril
Depois de ontem ter pulado e cantado (imagine-se!) ao som do Rei Cid (leia-se: José Cid), hoje à noite o registo é bem diferente: ópera.
A Camerata Académica de Salzburgo traz a famosa ópera de Mozart de cariz cómico-satírico "Le nozze de Figaro", inserido no Festival Rota dos Monumentos.
Mais tarde, é imperdível o concerto dos Azeitonas, no Casino Estoril. Lançados por Rui Veloso, 4 moços e uma bela vocalista formam um grupo sui generis e cantam temas próprios (dos quais destaco "Um tanto ou quanto atarantado") e outros tantos repescados a senhores como Carlos Paião, Armando Gama ou o já aqui aludido José Cid. Não tiveram o sucesso que merecem, mas não deixam de marcar presença aqui e ali, às vezes no Maxime, outras em programas de tv.. Certo é que se espera um concerto divertido, que são gente cheia de talento (fazem até música por medida!).

Terça-feira, Agosto 19, 2008

Contagem Decrescente


Não me lembro de alguma vez ter ansiado tanto pelo fim do mês. Para quem (ainda) não entenda as datas laborais, o fim do mês coincide com a chegada do salário à conta bancária e, por conseguinte, com a possibilidade de esbanjá-lo com aquele prazer que só uma mulher sabe quando estoira meio ordenado em sapatos e carteiras logo no primeiro dia.

Desta feita (ando a progredir!) não se tratam de sapatinhos nem carteiras. Estou é desertinha para rumar à FNAC e comprar duas ou três coisinhas boas, entre as quais o (FINALMENTE!) exclusivo CD e DVD das Nouvelle Vague, gravação do concerto soberbo a que assisti em Dezembro passado na mítica Aula Magna.

Estou também à espera do novo livro de Carlos Ruiz Zafón, que já anda por algumas bancas mas ainda sem a desejada tradução.... e, por supuesto, da nova obra do grande Savater, "A vida eterna". (Sim, sou fã dos espanhóis!) Bem, e depois de uma dose de cultura, restará com certeza um tempo (e saldo!) para dedicar-me às trivialidades femininas...

Segunda-feira, Agosto 18, 2008

Louça de Alcobaça

Crónica de uma morte anunciada

Bem sei que a tradição já não é o que era… Porém, se tempos houve em que neste “Portugal dos pequenitos” primava o repúdio pelo nosso passado e menosprezo pelas nossas raízes numa vã tentativa de querermos ser/parecer o que não éramos, somos ou seremos, hoje verifica-se uma certa inversão de comportamento e até uma saudável tendência em recuperar ou, pelo menos, recordar e valorizar aquilo que há muito nos é intrínseco. Claro que, continua a haver excepções...

Falo num contexto genérico, mas ocorreu-me isto a propósito de um produto característico desta nossa região que outrora nos engrandeceu, levando além fronteiras a marca "Alcobaça", mas que está, hoje, votado ao esquecimento e, com algum pesar, atrever-me-ia a dizer, à morte.

Reporto-me à louça de Alcobaça de um nobre azul e de um estilo inconfundível, que, durante décadas, brilhou na indústria local e projectou esta região além fronteiras e que, infortúnio de todos, só se mantém viva na memória de alguns e nas mãos de muito poucos.

O problema não é novo: a indústria de cerâmica que outrora prosperou, também atravessou fases ‘complicadas’ ao longo dos tempos, ditadas, por exemplo, por uma certa decadência artística, a dado passo, e por alguma falta de qualidade, mercê da mecanização.

Tristemente, nos dias que correm, “complicada” não qualifica a etapa da vida desta nossa tradição cultural, antes podendo falar-se de um prenúncio de morte de um produto que - de forma mais artesanal ou mais industrial - coloriu em tempos o nosso panorama artístico local e, sequentemente, nacional.

Embora jovem e dada a artes muito díspares desta, sei bem do que falo, porquanto nasci e cresci numa família de artistas - mãe, tios e primos, todos eles inevitavelmente ligados à história da louça de Alcobaça, desde os seus tempos áureos. Hoje, ainda subsiste uma fábrica de faiança na família, que vai sobrevivendo, e um modesto atelier dirigido pelos meus pais que, ouso dizer, é único na dedicação e exemplar na mestria, sendo que tudo o que dali sai é plenamente artesanal e, mormente por isso, reconhecido e valorizado pelo País fora.

Mas se o aplauso é colhido no nosso Portugal, parece que, também aqui, “santos da casa não fazem milagres”, já que a nossa louça é pouco estimada na região que lhe deu berço. Com excepção de alguma Intelectualidade local que lhe tem vindo a dedicar atenção - através da publicação de obras a ela alusivas e o fomento de pequenas mostras – nada vejo fazer pela louça de Alcobaça.

Nada há, nesta Cidade, que dê a conhecer aos milhares de turistas que nos visitam esta nossa riqueza (excepção feita ao museu pertencente à família Bernarda)… No comércio dito tradicional tende a preterir-se essa louça artística por produtos estandardizados e que não têm qualquer ligação com a nossa região… Nenhum elemento das forças vivas da região, nem tampouco a comunicação social local (valha a atenção dos media nacionais que, esporadicamente, vão deitando o olho ao nosso artesanato, como foi o caso da última edição da revista “Visão”), dedica atenção aos poucos artistas que nos restam… E como se isto não bastasse, as fábricas continuam a fechar: só no ano transacto encerraram nove no concelho. E, aqui, cabe sugerir: por que não recuperar os artistas lançados ao desemprego com os fechos das fábricas e pô-los a transmitir esta arte às novas gerações?.. Afinal, só honram o passado aqueles que em cada dia cultivam e aprofundam a sua memória, fazendo dela o “futuro do presente”.

Por tudo isto e o mais que não digo, parece-me quase inevitável anunciar a morte da louça de Alcobaça, com tudo o que isso acarreta quer para a economia local, quer para a herança e património cultural. O que aqui me indigna – e por isso aqui partilho – é que se subestime esta riqueza local e que perante a inevitabilidade da sua morte, estejam todos tão acomodados e indiferentes, como se o passado não importasse mais. Não esqueçamos as palavras (sempre) sábias de Eduardo Lourenço: “Só temos o passado à nossa disposição. E é com ele que imaginamos o futuro.”

* Artigo de opinião publicado na última edição do semanário "Região de Cister"

Quinta-feira, Agosto 14, 2008


O suplemento P2 da edição de hoje do Público traz um artigo versando sobre esse fenómeno de democratização que ao longo dos tempos se abateu sobre a vila de São Martinho do Porto. Outrora refúgio das elites, a baía é hoje indispensável local de romaria nesta época estival, com invariáveis picos de peregrinação a partir da segunda quinzena do mês de Agosto. Nada há de errado nisto, bem sei. Mas para aqueles que desde sempre abraçaram a baía, polvilharam os corpos daquela areia fina, mergulharam na tranquilidade do azul, palmilharam aquelas ruas estreitas e íngremes, rebolaram como crianças pelo monte de Salir abaixo, adormeceram exaustos resguardados pelas barraquinhas de pano às riscas, devoraram gelados nos escarlates fins de tarde, vaguearam pelo cais e se habituaram aos omnipresentes risos das crianças... sabe um bocadinho a invasão.
* foto de Pedro Libório

Quarta-feira, Agosto 13, 2008

Recomenda-se

Sonho de uma noite de Verão, Shakespeare, pelo TNDM II

Desta vez a ida ao D. Maria foi diferente do habitual. Sugestão de amiga levou-me, não ao Teatro Nacional, mas logo ali ao lado, ao Palácio da Independência. O espectáculo começa antes da hora, no recinto do Palácio, ao ar livre com direito a melodias estilo prelúdio, fadas empoleiradas nas àrvores e os camarins à vista pelas janelas entreabertas do 1º andar. Tudo a fazer prever um espectáculo sui generis. E, efectivamente, o conto de Shakespeare pelas mãos do TNDM II resulta numa representação a léguas do tradicional: há muito humor, uma cenografia tão simples quanto graciosa, encantadores figurinos, há vozes imponentes e representações pungentes a brilhar num nobre palco que é um palácio.

Razões não faltam, por isso, para que se recomende uma noite de verão e de sonho ali para os lados do Rossio, sendo que só está em cena até ao próximo sábado. Caberá ainda louvar aqui a ideia em levar o Teatro Nacional a outros espaços públicos, particularmente a um espaço vizinho cuja beleza muitos desconhecem. Creio bem que o mentor tenha sido Carlos Fragateiro, que entretanto foi exonerado da Direcção do D. Maria sem que até agora se perceba o porquê. É que, com Fragateiro, o TNDM II retomou o fôlego, aumentou o número de espectadores e dinamizou a envolvente do edificio que até então todas as noites ficava entregue aos sem-abrigo. Mas, ao que parece, nada disto releva aos olhos desse organismo indeterminado que é o actual Ministério da Cultura.

Segunda-feira, Agosto 11, 2008

Cinderela do séc. XXI


A modos que (amo esta expressão!), já tenho saudades de descer a Rua do Crucifixo aos tremeliques, olhos postos nas horas que se faz tarde, carteira a baloiçar no braço e jornal em riste. Lá vai ela - diria o Reininho - olhar focado no sapatinho, a injuriar a calçada portuguesa, num zig-zag entre as pedras da calçada menos espaçadas, não vá perder uma capa e passar o resto do dia estilo ferradura de cavalo. Era uma aventura a cada manhã, rua acima, rua abaixo, escadaria rolante, semáforo vermelho, dobrar a esquina a 300/h, elevador, 2º, plim, ufff... numa rotina que já sabia de cor e que quase fazia de olho fechado. Os moçoilos da publicidade a desperdiçar papel, as cabeleireiras numa conversa sonolenta, as lojas ainda de grades corridas, a senhora da lenga-lenga da lotaria, a apetitosa montra e o cheiro a bolos que a pastelaria exalava, o sapateiro que já conhecia de gingeira o meu arsenal de calçado, já que à mercê da calçada portuguesa - volta e meia - lhe ia parar às mãos um sapatinho meu, qual Cinderela do séc. XXI. Agora, estou mais numa de Gata Borralheira. Valha-me o chão regular...

Adenda: Pese embora o estado "Gata Borralheira", não se caia no erro de julgar que ainda não dançei com o meu príncipe...

Quinta-feira, Agosto 07, 2008

gosto de contemplar a cidade daqui. não estou demasiado longe para perdê-la nem demasiado perto para me perder nela. estou sim, sozinha nesta plateia, sem lugar marcado numa tarde cinza que entristece este agosto. daqui não ouço ruído, apenas vejo o bulício como se de um filme mudo se tratasse. daqui degusto cada pedaço de vida que há ali, como se quisesse saborear outra que não a minha. o prazer de descortinar o quotidiano dos traunseuntes lá em baixo? talvez. voyerismo, chamam-lhe. mas mais do que saborear vidas, do que eu gosto mesmo, confesso, é de saborear a cidade daqui. e facto é que, por vezes, há personagens desta urbe que momentaneamente se apoderam de mim.