Crónica de uma morte anunciada
Bem sei que a tradição já não é o que era… Porém, se tempos houve em que neste “Portugal dos pequenitos” primava o repúdio pelo nosso passado e menosprezo pelas nossas raízes numa vã tentativa de querermos ser/parecer o que não éramos, somos ou seremos, hoje verifica-se uma certa inversão de comportamento e até uma saudável tendência em recuperar ou, pelo menos, recordar e valorizar aquilo que há muito nos é intrínseco. Claro que, continua a haver excepções...
Falo num contexto genérico, mas ocorreu-me isto a propósito de um produto característico desta nossa região que outrora nos engrandeceu, levando além fronteiras a marca "Alcobaça", mas que está, hoje, votado ao esquecimento e, com algum pesar, atrever-me-ia a dizer, à morte.
Reporto-me à louça de Alcobaça de um nobre azul e de um estilo inconfundível, que, durante décadas, brilhou na indústria local e projectou esta região além fronteiras e que, infortúnio de todos, só se mantém viva na memória de alguns e nas mãos de muito poucos.
O problema não é novo: a indústria de cerâmica que outrora prosperou, também atravessou fases ‘complicadas’ ao longo dos tempos, ditadas, por exemplo, por uma certa decadência artística, a dado passo, e por alguma falta de qualidade, mercê da mecanização.
Tristemente, nos dias que correm, “complicada” não qualifica a etapa da vida desta nossa tradição cultural, antes podendo falar-se de um prenúncio de morte de um produto que - de forma mais artesanal ou mais industrial - coloriu em tempos o nosso panorama artístico local e, sequentemente, nacional.
Embora jovem e dada a artes muito díspares desta, sei bem do que falo, porquanto nasci e cresci numa família de artistas - mãe, tios e primos, todos eles inevitavelmente ligados à história da louça de Alcobaça, desde os seus tempos áureos. Hoje, ainda subsiste uma fábrica de faiança na família, que vai sobrevivendo, e um modesto atelier dirigido pelos meus pais que, ouso dizer, é único na dedicação e exemplar na mestria, sendo que tudo o que dali sai é plenamente artesanal e, mormente por isso, reconhecido e valorizado pelo País fora.
Mas se o aplauso é colhido no nosso Portugal, parece que, também aqui, “santos da casa não fazem milagres”, já que a nossa louça é pouco estimada na região que lhe deu berço. Com excepção de alguma Intelectualidade local que lhe tem vindo a dedicar atenção - através da publicação de obras a ela alusivas e o fomento de pequenas mostras – nada vejo fazer pela louça de Alcobaça.
Nada há, nesta Cidade, que dê a conhecer aos milhares de turistas que nos visitam esta nossa riqueza (excepção feita ao museu pertencente à família Bernarda)… No comércio dito tradicional tende a preterir-se essa louça artística por produtos estandardizados e que não têm qualquer ligação com a nossa região… Nenhum elemento das forças vivas da região, nem tampouco a comunicação social local (valha a atenção dos media nacionais que, esporadicamente, vão deitando o olho ao nosso artesanato, como foi o caso da última edição da revista “Visão”), dedica atenção aos poucos artistas que nos restam… E como se isto não bastasse, as fábricas continuam a fechar: só no ano transacto encerraram nove no concelho. E, aqui, cabe sugerir: por que não recuperar os artistas lançados ao desemprego com os fechos das fábricas e pô-los a transmitir esta arte às novas gerações?.. Afinal, só honram o passado aqueles que em cada dia cultivam e aprofundam a sua memória, fazendo dela o “futuro do presente”.
Por tudo isto e o mais que não digo, parece-me quase inevitável anunciar a morte da louça de Alcobaça, com tudo o que isso acarreta quer para a economia local, quer para a herança e património cultural. O que aqui me indigna – e por isso aqui partilho – é que se subestime esta riqueza local e que perante a inevitabilidade da sua morte, estejam todos tão acomodados e indiferentes, como se o passado não importasse mais. Não esqueçamos as palavras (sempre) sábias de Eduardo Lourenço: “Só temos o passado à nossa disposição. E é com ele que imaginamos o futuro.”
* Artigo de opinião publicado na última edição do semanário "Região de Cister"