Sexta-feira, Maio 30, 2008

Vizinhos? Não, obrigada.

À entrada do prédio está afixada uma folha A4 onde alguém se lembrou de incitar à comemoração do Dia Europeu dos Vizinhos - data que se assinalou ontem, se não estou em erro.
Mal sabem eles que - desde que tenho memória - odeio vizinhos. Ora são gente mal disposta, ora desconfiada, ora conflituosa, ora intrometida... uff! razões não faltam para fugir da vizinhança como o diabo foge da cruz.
Vejamos:
Já me roubaram tapetes por duas vezes. Provavelmente estava a pedi-las.
Já me acordaram às 6 da manhã com Smashing Pumpkins na aparelhagem. Provavelmente quiseram garantir que não chegava tarde ao emprego.
Já me intoxicaram com fumo de charuto no elevador. Provavelmente foi uma vingançazinha pelo meu perfume.
Já me negaram um pacote de leite numa espécie de emergência culinária. Provavelmente tenho cara de quem é alérgica à lactose.
Já me ultrapassaram na entrada para o elevador. Provavelmente foi somente para assegurar que aquele estaria em condições.
Já deixaram a porta fechar justamente quando me preparava para aproveitar para entrar, carregada que estava de sacos do Continente. Provavelmente estariam só a zelar pela segurança do prédio...
Já me olharam pelo canto do olho e alguma decepção quando me viram junto ao correio em pijama e pantufas. Provavelmente esperariam ver-me em camisa de dormir e com muito melhor aspecto.
Já me tocaram à campainha a um sábado de manhã a transmitir um qualquer aviso do condomínio. Provavelmente estariam só a ser simpáticos.
Se calhar o problema é meu. Ou não.

Livra-te...


... de não apareceres! Hoje é sexta feira e, como é da praxe, o stress abunda pela ocidental praia lusitana. Presumirás - e bem - que não estamos para brincadeiras de mau gosto. Além do mais, pagámos um balúrdiozinho para te ver pela primeira vez por estes lados. Ah, e para te ouvir estamos até dispostos a gramar com a chuva que teima em molhar esta Primavera. Tende, por isso, piedade de nós e poupai-nos aos teus devaneios e caprichos!

Quinta-feira, Maio 29, 2008

Houve dias em que a voz embargada me impediu de te sussurrar ao ouvido o quanto gosto de ti. Fraquejou-me um amo-te sentido e as mãos disseram o que restava. Horas que escasseavam, palavras que perduravam.
Houve dias em que desejei delinear com os meus dedos os traços do teu rosto, ver-te fechar as pálpebras e emudecer os lábios. Consentir o teu silêncio.
Houve dias em que quis amar-te e senti-te longe. Houve dias em que ao longe te amei, e como, só eu sei.
Houve dias em que ousei magoar-te e até houve dias em que receei perder-te. Dias que se perderam por um fio, que se esgotaram nas trivialidades que abominamos. Dias que nos inquinaram. E ainda dias em que hesitei, tropecei e pereci. Por ti.
Houve dias assim, bem sei.

Quarta-feira, Maio 28, 2008

Cascais convida...

... e eu não me faço rogada!
Praia, música e muita animação em véspera de feriado.
*
Convite via Lodo no Cais

Segunda-feira, Maio 26, 2008

Da Gula


Tenho uma dúvida: quando se entra na pastelaria e a senhora por detrás do balcão sorri, pega de imediato na espátula dos bolos e me pergunta “então hoje o que é que vai ser, um pastel de nata ou um duchesse?” é grave, não é?! ... ...

Sábado, Maio 24, 2008

Não se faz!

Há jornalistas que mereciam levar um tabefe. E quem diz um tabefe diz uma murraça, um sem fim de caldaços, uma coça daquelas..! Então, mas isto é lá título que se dê a esta notícia??????!!!!!!! Aliás, violência à parte, isto dava mesmo era para lhes pôr um processo em cima! Ler esta epígrafe provocou-me uma espécie de arrepios, seguido de náuseas, falta de ar e, claro, uma súbita palidez. Sintomas que podiam bem ter desembocado num ataque cardíaco numa miúda de 23 anos! Tragédia que se justificava dado que se trata do grupo que marcou indelevelmente a minha adolescência, da banda que acompanhou as aventuras da minha fase mais rebelde e que ainda hoje me deixa perdida algures entre a euforia e a melancolia. Bem, mas até podia tratar-se do Grupo Folclórico e Etnográfico da Ribeirinha... who cares? O que aqui releva é o título a induzir em erro sem qualquer necessidade... Não se faz!

Sexta-feira, Maio 23, 2008

Recomenda-se

Museu Colecção Berardo @ CCB

Após várias tentativas frustradas - mea culpa, mea culpa - finalmente visitei o Museu do "Sr. Gulbenkian do séc. XXI". Num feriado chuvoso pensei deparar-me com mais gente, mas - confesso - ainda bem que assim não foi. No que toca a museus, o Berardo bate qualquer um dos demais por uma simples diferença: é o único que abre portas todos os dias do ano. Mas isto é apenas mais uma das infinitas e gravissímas lacunas culturais deste país.

Adiante. Aproveitei o CCB tranquilo q.b. e fui-me passeando pelas várias salas degustando arte ora com curiosidade, ora com pasmo. E, claro, muita vontade em trazer debaixo do braço duas ou três das obras expostas... (um Magritte, um Mondrian e um terceiro cujo nome me passou!)...

Os núcleos de Pop Art e Surrealismo são os da minha preferência. Já o previa. Pelo meio, uns toques de minimalismo, uns vestígios de impressionismo e outros tantos de uma arte contemporânea que não sei compreender.. (!). Mas isso não é razão para as não apreciar. São mais de oitocentas obras de arte que compõem o espólio do Sr. Comendador, sendo que há quem diga que a sua colecção é superior à do Guggenheim... São, portanto, mais de oitocentas razões para visitar o Museu Berardo, um senhor cuja irreverência não me agrada, mas que depois da viagem que me proporcionou ontem acabou por subir na minha consideração...

Quarta-feira, Maio 21, 2008

Festival Hola Lisboa


Começa hoje o Hola Lisboa 2008, Festival de Cinema IberoAmericano que tem lugar no S. Jorge até ao próximo dia 25. A abertura faz-se com o mediático e já premiado "Tropa de Elite", filme que retrata a actuação de uma equipa de militares especiais para intervir no labirinto de favelas do Rio de Janeiro, revelando a violenta realidade daquela que outrora foi denominada de cidade maravilhosa. A estreia do filme brasileiro que arrecadou o Urso de Ouro no Festival de Berlim é por mim bastante ansiada, mas o festival tem um sem fim de motivos para dedicar os meus próximos dias à 7ª arte. Confirme-se aqui.

Sexta-feira, Maio 16, 2008

A conta que Deus fez

O tempo - esse eterno bode expiatório - tem sido pouco para este agradável vício que é a blogosfera. E já não bastava essa árdua tarefa que é dividir-me entre dois amores - o Agre&Doce e o Lodo no Cais - acabo de ser recrutada para mais um blog, desta feita, um espaço dedicado aos jovens autarcas do distrito de Leiria.
Eis uma curiosa mistura a três: o Agre&Doce é o império dos meus cinco sentidos - o que vejo, o que sinto, o que ouço, o que inalo e o que degusto. No Lodo assumo posição sobre o que me rodeia numa perspectiva menos intimista. E ao JASD prometo fiel dedicação, prevendo um debate de ideias profícuo, uma interessante partilha de conhecimentos e uma plataforma de contacto entre os jovens social democratas e todos aqueles a quem interesse conhecer a actuação dos jovens autarcas.

Quarta-feira, Maio 14, 2008

Da Preguiça


"ai que prazer
não cumprir um dever,
ter um livro para ler
e não o fazer! "


É verdade, ando com preguiça. Tal qual Pessoa. Talvez seja o coração cheio que me deixa dormente o corpo e a mente. Mas se até ao poeta faltava apetite para cumprir o dever... por que não hei-de eu deixar-me levar por esta súbita apatia? Degustar brandamente este pecado capital. Deleitar-me com o nada. Se ao menos soubesse saborear esta letargia à revelia da razão...

Terça-feira, Maio 06, 2008

O Paraíso aqui na Terra


Ontem à noite à mercê de um zapping dei de caras com o Ricardo Carriço num autocarro. Com um esmerado sorriso publicitava e incitava o uso dos transportes públicos, impingindo a ideia de que aqueles são o Paraíso aqui na Terra. Apurei que a iniciativa partiu do Ministério das Obras Públicas e Transportes. Eu ia jurar que Mário Lino sugeriu a promoção do camelo como meio de transporte ideal para a Margem Sul, mas para desalento geral o spot publicitário restringe-se só à Capital...

Confesso que acho imensa piada aos famosos que dão a cara por estas "causas". No presente caso, duvido muito (mas mesmo muuuuuuuuuuuito) que o Sr. Carriço já tivesse entrado num autocarro até ao dia em que gravou esta publicidade. Mas pronto, aguenta-se tal suplício porque fica bem e ganha-se uns trocos. E, claro, compreendo a escolha: só mesmo quem não anda quotidianamente de transportes públicos conseguiria esboçar um sorriso daqueles e parecer tão convicente.

No anúncio, Carriço faz-me lembrar aqueles elitistas encapotados que de vez em quando lá fazem uma viagem de metro - nunca mais de duas estações e exclusivamente na linha amarela... - o que se traduz num gigantesco esforço para dar aquela ideia de que são cidadãos comuns. Estilo Francisco Louçã, se é que me faço entender...

Um dos argumentos utilizados no spot é o de que os transportes públicos potenciam a qualidade de vida. Será que ouvi bem?! Os transportes públicos estão cheios de gente macambúzia, cinzentona e, regra geral, pouco dada ao civismo. No claustrofóbico Metro, ter que gramar logo pela manhã os tipos do acórdeão, os ceguinhos com as suas lenga-lengas e os miúdos do guetto com os ipods em décibeis impensáveis é qualidade de vida?!... A juntar a isto, o indesejável contacto visual, uma pisadela, um empurrãzinho aqui, uma apalpadela acolá... e o dia não podia começar melhor. Mas, vá lá, sejamos justos: o Metro poupa-nos do stress do trânsito, dos taxistas e do mau tempo o que o torna num transporte público menos desagradável que os demais, lá isso é inegável.

Outro argumento apresentado é o de que durante os percursos se pode fazer fazer imensa coisa. Deixa cá ver... pintar as unhas, fazer a lista de compras? Ah, não... ler, conversar, apreciar a paisagem... dizem eles. Bem, talvez seja possível, mas só quando não há por perto velhos do Restelo a clamar pelo regresso de Salazar, mulheres bairristas aos berros, adolescentes histéricas que se maquilham nos bancos de trás, personagens loucas - como aquela idosa vestida de noiva e bouquet de plástico que às vezes se passeia no 58 -, donas de casa com trinta sacos de compras atrás, crianças para lá do suportável, velhos a trautear o hino do Benfica e eu sei lá que mais!

Se eu me cruzasse com indivíduos estilo Ricardo Carriço nos autocarros, não duvidem de que me tornaria instantaneamente fiel aos amarelinhos da Carris. Isso sim, seria uma paisagem idílica, digna do Paraíso. Mas não. Os transportes públicos são coisa de gente feia, tristonha e onde se concentram altos níveis de stress. Enfim, são um Inferno! Quase que entendo os que se estão nas tintas para os problemas ambientais, os que emitem CO2 até mais não, os que preferem entupir as artérias da cidade, percorrer quilómetros para estacionar e acabar em segunda fila com 4 piscas e uma multa à espreita...

Para finalizar o galã de serviço - para rimar com Carriço - ainda remata com um "Goze a viagem"!... É que só pode estar a gozar..!


*ilustração de Ricardo Machado

Prenúncio da morte da Língua Portuguesa

Eu, que não sou nada entusiasta de petições, estou prestes a subscrever esta.
E não é porque queira estar em sintonia com ilustres como António Lobo Xavier, Mário Cláudio, Paulo Teixeira Pinto, Vasco Graça Moura, Miguel Veiga, Eduardo Lourenço ou até mesmo com o sempre dissonante Pacheco Pereira...
É que por pouco que acredite na eficácia destas petições vou sentindo o dever de manifestar-me contra a morte anunciada da língua de Camões.
Temo o desaire desta língua portuguesa - que muito estimo - se esse maldito acordo ortográfico se vier a efectivar daí que, aqui e ali vá deixando vestígios do meu pesar.

Domingo, Maio 04, 2008

Memórias


... ou coisas que me fazem sentir vetusta [VIII]

Não me lembro da última vez que encontrei uma carta no correio daquelas que têm o endereço de remetente e destinatário escrito à mão e o selo lá no canto um pouco torto, provavelmente lambido a medo. Sempre que rodo a pequena chave cai-me um sem fim de publicidade, comprovando a iliteracia dos distribuidores, que ainda não assimilaram o significado do autocolante amarelo fluorescente e que na ânsia de despacharem o trabalho me deixam uma dezena de panfletos iguais. Depois da enxurrada de publicidade o normal é deparar-me com os inevitáveis extractos bancários e com as numerosas missivas a dar conta das contas a pagar. Com este cenário, a vontade de abrir aquela caixinha é tão pouca que hoje só arranjo coragem para abri-la duas ou três vezes por semana.

Esta quase repulsa pelo que daquele receptáculo possa sair contrasta com um tempo que já lá vai. O tempo em que descia as escadas de casa a correr mal ouvia o ruído da moto ao fundo da rua. O carteiro não tocava duas vezes como no filme, aliás, só tocava quando a remessa não cabia na pequena caixa de correio ou quando a importância da carta o exigia...

Lembro-me de rasgar com sofreguidão o envelope, encontrar folhas de um qualquer bloco A4 escritas com uma caligrafia cuidada a revelar histórias, pedaços de vida, novidades, desabafos e sei lá que mais. Lembro-me das cartas fechadas a lacre, normalmente de um vermelho sangue luzidio que tornava a missiva ainda mais distinta. Lembro-me ainda da caixa de correio vermelha na fachada da mercearia e dos cilíndricos marcos vermelhos espalhados pela cidade que hoje já pouco se vêem.

Era um tempo em que email e sms eram conceitos ainda desconhecidos. Um tempo em que as palavras eram bem mais valorizadas, a par da caligrafia que nelas se revelava. O tempo em que a troca de correspondência escrita via CTT era um meio de comunicação primordial, longe de saber o que o futuro lhe reservava...