Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Tiraste-me as palavras da boca...

"A calçada portuguesa é linda, é típica, é uma coisa que nos enche de orgulho, é ver tudo quanto é turista a tirar fotos ao chão, é um trabalhão que está ali, uma preciosidade, e blá blá blá. É tudo muito bonito, mas e os sapatinhos que a calçada arrasa, hã? Não há ninguém que pense nisso? São as pontas que ficam todas estragadas, são os saltos que se entalam entre as pedras, são as capas que vão à vida, são as vergonhas que se passam quando o sapato fica preso e uma pessoa tem de se descalçar e estar ali de rabo para o ar a tentar soltá-lo. É um rol de desgraçame que não tem fim. Senhores da Câmara Municipal de Lisboa: se nos estão a ler, vamos lá a alcatroar os passeios que também ficam muito jeitosos, muito asseados e não estragam nada a ninguém. É que senão somos obrigados a mobilizar toda a nossa ira e a apresentar-vos as continhas do sapateiro, e já se sabe que dinheiro é coisa que não abunda por esses lados, não é verdade? Fica à consideração."

Ana Garcia Martins in Time Out, edição 21/11/2007

Segunda-feira, Novembro 26, 2007

Chá, um Sofá e a Vida dos Outros


Estreia hoje no AXN, “Gossip Girl”, mais uma série de sucesso nos EUA que eu antevejo que me vá prender ao ecrã. Não é só mais uma série, o curioso desta é que o argumento baseia-se numa blogger anónima (a tal Gossip Girl), que através do seu blog vai opinando sobre a realidade de um determinado círculo de jovens de Manhattan. A dúvida é: lançando rumores ou descrevendo a realidade? Seja como for, a verdade é que o que escreve é levado a sério pelos que a lêem, de tal forma que condiciona os acontecimentos dos grupos de jovens de Upper East Side. É o poder da blogosfera nos dias de hoje...
Estilo “The Orange County”, i.e. estórias cor-de-rosa pinceladas a cinza, cheias de meninas bem, betinhos rebeldes, muito glamour, muita paixoneta, pool-party’s animadas, colégios de renome, spa’s, idas às compras de fazer inveja a qualquer mulher que more a milhas de Nova Iorque, discussões familiares sempre muito “certinhas” ( num tom de voz estranhamente baixo) e outras futilidades que nos sabem tão bem depois de um dia de trabalho, quando nos refugiamos no sofá com uma imensa caneca de chá e nos deliciamos com a vida dos outros, tentando esquecer a nossa por um bocadinho...


PS - Infelizmente o meu sofá está longe de ter o conforto que o sofá da imagem aparenta... ... sim, é uma dica, agora que se aproxima o Natal... ;)

Sábado, Novembro 24, 2007

Meravigliosa Pubblicità

Esta soberba publicidade não me sai da cabeça.
De um requinte tal que parece que publicita um Maserati ou um Lamborghini... nunca um Fiat..!
É claro que a música da italiana Gianna Nannini em muito contribui para a beleza do spot.
Vale a pena, por isso, ouvir a versão completa de "Meravigliosa Creatura" aqui.

"
(...)

Turbini e tempeste
io cavalcheró
voleró tra i fulmini
per averti...
(...)
Luce dei miei occhi
brilla su de mi
voglio mille lune
per accarezzarti
pendo dai tuou sogni
veglio su de ti
non svegliarti... non svlegliarti...
ancora...
(...)
Meravigliosa creatura
un bacio lento
Meravigliosa paura
d'averti accanto

(...)
"

Sexta-feira, Novembro 23, 2007

Recomenda-se


Do ecrã para o palco, esta transposição pela mão de Fernanda Lapa (que traduz, encena e interpreta..!) cai bem numa noite de Outono como a de ontem.
Não vi o filme de Ingmar Bergman (nem sou grande apreciadora do cineasta, confesso...) mas ouvia-se no foyer do São Luiz que não se pretendia uma colagem total à obra do sueco. E consta que assim se sucedeu...

O Outono parece ser a estação de eleição de Bergman, e ao som de Chopin, Mozart e Bartok o vento soprou, as nuvens ameaçaram e a tempestade assaltou o palco à medida que Fernanda Lapa, Ana Bustorff, Virgilio Castelo e Marta Lapa se nos iam revelando.
Sucintamente, trata-se da história de uma mãe que interpretava magistralmente obras musicais, mas nunca soube interpretar os sentimentos das filhas.
E assim, Bergman subverte a convenção das relações de afecto familiar e instinto maternal.
O resultado?
Drama. Dor. Doença. Desencontro. Desamor.
Sentimentos (muitos...) sem dar, no entanto, azo a sentimentalismos... (parafraseando uma fala da personagem Charlotte).
Tudo isto, cumprindo a mais nobre finalidade da arte teatral: pôr-nos a indagar, a pensar. Muito.
Pode considerar-se esta adaptação de “Sonata de Outono” como uma homenagem póstuma a Bergman, que faleceu em Julho passado. Fernanda Lapa e demais intervenientes estão de parabéns. Cabendo, a meu ver, relevar o magnifico trabalho cenográfico ( António Lagarto) e o desenho de luz ( Mário Bessa). Ambos souberam dar à bonita peça o tom sofisticado que ela merece.


[em cena Teatro São Luiz até ao próximo domingo, info]

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

Memórias

... ou coisas que me fazem sentir vetusta (III)


Já há muito tinha descoberto a paixão pela leitura, quando descobri a colecção que marcou a minha infância: “Uma Aventura”.
Comecei por surripiar da prateleira da mana (abria, desse modo, o precedente...) um exemplar daquela colecção. Não foi ao acaso que a mão escolhera “Uma Aventura no Supermercado”, confirmando que os meus impulsos consumistas já vêm de longe...
A partir daí, foi um devorar de livro atrás de livro. Surripiados à mana, requisitados na Biblioteca da Escola ou num intercâmbio com os amigos, o gosto pela colecção tornou-se um vício saudável. E claro, sempre a aguardar ansiosamente que as autoras lançassem mais. Cheguei a pedir-lhes, pessoalmente, que o ritmo da sua escrita acompanhasse o vertiginoso ritmo da minha leitura, quando nos honraram com uma visita à Escola.

Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada são uma referência para mim e para tantos que, como eu, se viciaram a ler as mirabolantes estórias dos cinco amigos. Mas são, sobretudo, uma referência na literatura infanto-juvenil de qualidade. Não é por acaso que a colecção é recomendada pelo Ministério da Educação e pela Fundação Gulbenkian, sendo que alguns dos livros fazem mesmo parte do Plano Nacional de Leitura.
As autoras estão de parabéns por heroicamente terem conseguido pôr muitas crianças a ler. Para mim, ler cada um daqueles livros foi, precisamente “uma aventura” – vestia a pele dos personagens, embrenhava-me na história e vivia aquilo de uma forma tão intensa que assustava... Mas mais importante, é constatar que aprendi imenso com eles, uma vez que de forma transversal versam matérias como História, Geografia, Ciências, etc. etc. sempre em bom Português. A componente pedagógica na colecção é uma mais valia e confirma a sua qualidade.

Hoje, as leituras são outras. O último que li, “Uma Aventura na Biblioteca”, corria o ano de 1996.... Mas na memória perduram os momentos com que me deliciei, as coisas que aprendi e as aventuras em que embarquei, sem sair do sofá ou do banco do recreio.

Sexta-feira, Novembro 16, 2007

O Mestre está cá!


David Lynch, realizador que muito aprecio, está em Portugal.
A propósito do European Film Festival - que termina amanhã no Estoril - o esotérico realizador vai ser justamente galardoado com o Prémio Carreira e, imagine-se,
dar uma masterclass em Meditação Transcendental.
Só de ouvir falar nele, e na impossibilidade de vê-lo e ouvi-lo, apetece-me correr para o dvd e ver ininterruptamente dois dos filmes que fazem parte do meu top: "The straight story" e "Mulholand Drive".
Filmes tão díspares e no entanto, ambos assinados pelo mesmo Mestre:
Lynch. David Lynch.

Quinta-feira, Novembro 15, 2007


beijam-me os raios de sol desta tarde outonal, quando eu só queria que fosses tu a beijar-me...

Terça-feira, Novembro 13, 2007

Curvas e Inteligência - as mesmas medidas?

"Segundo um estudo, as mulheres curvílineas não só são mais inteligentes, como têm hipóteses de ter filhos mais espertos" *

Primeiro pensamento que tive: estou tramada..! E os meus filhos idem idem aspas aspas.
Por motivos óbvios sou suspeita de o dizer, mas não resisto: a fiabilidade destes estudos é duvidosa..!
Não vejo qual possa ser a relação entre o formato corporal de uma pessoa e a sua inteligência... já para não falar da inteligência da prole que venha a originar.
Mas o que me atormenta, mais que o meu corpo, é o tempo e dinheiro gastos pelos investigadores nestes tipo de pesquisas!
Que raio passa pela cabeça de quem leva a cabo estes estudos?!
Associar curvas a inteligência é tão descabido e preconceituoso como associar louras à burrice.
E o que não me parece mesmo nada inteligente é lançar e fundamentar estereótipos como estes.
Isto, digo eu.
Mas queira o leitor ter em consideração que o meu corpo de curvílineo pouco, ou nada, tem...
*in jornal gratuito "Meia Hora", pág. 2 edição hoje

Segunda-feira, Novembro 12, 2007

Sud Express - uma inesperada viagem (no tempo)


Manhã soalheira, perdida num recanto do nosso país, longe de imaginar o que me esperava. Entrei vagarosamente na estação. Não me lembrava da última vez que andara de comboio, mas a ideia agradava-me. Mais não fosse pelo inesperado da viagem.

“Para Lisboa s.f.f”.
“No Sud Express ou no Intercidades?”, ouviu-se.
“No primeiro que passe” respondi.

Pois bem, calhara-me o Sud Express.
Aguardando no cais, percorro a memória com alguma dificuldade, dado o cansaço acumulado, agravado pelo frio que aos poucos me tolhia o pensamento.
Ainda assim, rebusquei nas memórias aquela designação, e ocorreu-me:
Sud Express?
O histórico comboio que outrora levou Portugal em direcção à Europa?
O Sud Express que eu lera nos manuais, das emigrações e dos exílios?
O famoso comboio que eu ouvira falar dos inter-rails das décadas de oitenta e noventa?
A viagem que inspirou o filme?
Esperar para ver.

Encostada à parede, deixo que o sol outonal me aqueça o corpo e a alma.
Fecho ligeiramente os olhos, mas logo soa ao longe o ruído do comboio que aguardo.
Chega ao cais número cinco, como previsto, às 09h56.
Descem alguns passageiros, com a ânsia de quem chega ao destino.
Sobem novos passageiros, com a curiosidade de quem embarca num velho pedaço de ferro, num velho pedaço de História.
Parece-se com o esboço do Sud Express que me veio à memória, ainda que antiquado, sujo e ruidoso.
Estreito corredor a fora, busco um qualquer compartimento vazio.
Corro as cortinas de um laranja desbotado e deixo entrar o sol. Encosto-me e descontraio. Espera-me uma viagem de uma hora, sem paragens até ao destino.
Apetece-me dormir, mas luto contra o cansaço. Quero desfrutar a viagem, seja lá o que isso for.
O comboio arranca, com a dificuldade e lentidão que se espera de um centenário. O trémulo Sud Express reinicia a viagem e eu deslizo pelo banco a baixo.

Um homem de meia-idade bate no vidro da porta de correr e pergunta se pode partilhar comigo o compartimento.
Que dejá vu . Soava-me a filme.
Murmuro um Sim, acompanhado com um sorriso amarelo qb.
Munido de um tripé e gigantes objectivas fotográficas, instala-se no banco da frente.
Mete conversa, outra coisa não seria de esperar.
Se me importo que estique as pernas e as apoie no banco. Não.
Se faz paragens até Lisboa. Pelo que sei, não.
Se tenho lume.
Não fumo.
Se estou a gostar de ler aquele livro. Mais ou menos.
Se costumo viajar de comboio. Não.
Se não acho que em vez do TGV, seria mais certeiro e menos megalómano reabilitar as linhas ferroviárias existentes. Acho.
Perante tamanha amabilidade, resolve dedicar-se a ler um qualquer semanário.
Em boa-hora, talvez assim eu possa contemplar o cenário lá fora.

A janela era um ecrã sem direito a zapping.
Paisagens de um verde acastanhado iam alternando com a solidão das casas que o sol iluminava sem grande êxito. Uma estrada vazia, ao longe. Um aglomerado de casebres parecia perdido num vale escuro e húmido. Os campos de cultivo, descurados, votados ao esquecimento, povoados de ervas daninhas. Nem uma pessoa a vislumbrar.
Aos poucos, o cenário começava a mudar. A periferia de Lisboa, triste, poeirenta, pardacenta, grafittada, gradeada.
Abranda o ritmo quando se avista a moderna Gare do Oriente, em contraste com o velho comboio.
Desembarcam alguns, seguem os resistentes.
Ao fim da manhã de domingo, chega a Santa Apolónia.
Com vagar, despeço-me do companheiro de viagem com um sabor amargo que não me é característico.
Do nada, beija-me a mão e despede-se com um sorriso que lembra o meu avô.
Ou seja, afável, mesmo quando não é correspondido.

Desço para o cais. As plataformas estão praticamente desertas, silenciosas. Os meus olhos vêem-nas a preto e branco, numa versão de outros tempos.
Um filme, esta viagem.
Como aquele a que o Sud Express já deu nome.

Sexta-feira, Novembro 09, 2007

Consumismo, pura vaidade ou...



O que é que acontece quando um afamado estilista italiano compõe uma luxuosa colecção para uma cadeia multinacional de roupa, onde os preços acessíveis são imperativo categórico?
Pois bem, no dia em que a colecção é posta à venda, esgota-se em menos de uma hora.
Falo de
Roberto Cavalli e da cadeia H&M.
Depois das celebridades Madonna e Kylie Minogue, e dos estilistas Karl Lagerfel,, Stella MCcartney e a dupla Vicktor&Rolf, chegou a vez do estilista italiano assinar uma colecção para a multinacional sueca.
Vestidos cheios de brilhos, longos e esvoaçantes; smokings elegantes e outras tantas peças com os padrões vistosos a que já nos habituou Cavalli, desapareceram mal as portas abriram ontem pela manhã na loja do Chiado.
O fenómeno, confirmei eu, hoje mesmo ao passar pela dita loja.
Pude constatar que apenas sobrava um cartaz a aludir à colecção e apenas pude vislumbrar um (um!!!) exuberante vestido de lantejoulas douradas, minúsculo (número 32, muito provavelmente...) que, presumo, deverá ter sido hoje devolvido por quem ontem comprou sem ter tempo de experimentar.
O fenómeno não era assim tão imprevisível - afinal, não é todos os dias que se pode vestir Cavalli a preços “H&M”... Mas confirma que, mesmo em tempos de contenção, os portugueses fazem qualquer esforço para poder vestir peças cuja etiqueta jamais lhes seria acessível. A colecção foi a mais cara posta à venda pela H&M, mas isso não impediu que aqueles que fizeram fila para entrar na loja comprassem tudo o que esteve ao seu alcance.
E ao que parece,
não foi só em Portugal que isto sucedeu.
Consumismo, pura vaidade ou... simplesmente a legítima oportunidade de vestir glamour, ao alcance de qualquer um.

Quinta-feira, Novembro 08, 2007

«Acorrentada»

"Quando resolvia, podia ser perturbadora. Convidava as pessoas que mal conhecia para posar. Fotografava mãos, rostos sem maquilhagem nem artifícios, lábios entreabertos.Gostava também das nucas e de determinadas costas. Em qualquer exposição, as suas fotografias eram as mais impudicas, as mais obviamente sensuais e cruas. Acumulava prémios e sentia-se sempre insatisfeita."

Não sou muito dada a «correntes», mas não podia deixar de aceder ao inesperado (e simpático) desafio de Teresa Ribeiro, do “Corta Fitas”, para dar continuidade à corrente literária que anda há muito a interligar a blogosfera. Para os mais desatentos, esta cadeia consiste, basicamente, em pegar num livro que tenha à mão, procurar a página 161 e partilhar (via blog) o parágrafo que abarque a 5ª linha.

Confesso que o parágrafo que acima transcrevi não corresponde ao primeiro livro em que peguei. Acontece que o livro para o qual a minha mão se direccionou era um qualquer livro de teor jurídico que jaz na minha estante.
Nem me dei ao trabalho de procurar a dita página. Peguei noutro. Contudo, as ‘Confissões da Liberal’ Maria Filomena Mónica não são assim tantas, dado que não chegam às 161 páginas...
Como à terceira é de vez, eis que me ‘sai na rifa’ um livro que já li há algum tempo - Pêssegos Gelados, de Laura Espido Freire, uma jovem autora basca.
E não podia ser mais nobre, a passagem.
Cumpre agora desafiar mais cinco para a corrente: Claudinha, Carlota, Eduardo, Nuno e Marta.

Domingo, Novembro 04, 2007

E a Rússia aqui tão perto *


Não sou especialmente fã da história e cultura russa, ainda que reconheça que a Rússia influenciou de forma indelével o rumo do Mundo e que a sua cultura é das mais interessantes e variadas.
Precisamente por isso, visitei a exposição do Hermitage, patente no Palácio da Ajuda.
Até meados de Fevereiro é possível ali contemplar uma ínfima parte do acervo do Museu Hermitage, um dos maiores museus do Mundo.
Confesso que esperava uma exposição de enorme dimensão e não foi isso que encontrei.
As seiscentas peças expostas sabem a pouco, especialmente quando se diz que o Hermitage tem um acervo de três milhões de objectos de arte.
De qualquer das formas, o que lá está, sublinhe-se, está muito bem.
Excelente divisão do espaço pelos vários personagens reais que marcaram o Império russo; excelente escolha das peças em exposição - i.e. um pouco de tudo: jóias, retratos, peças decorativas e utilitárias, mobiliário, vestuário, etc.
Consta que, a ser um sucesso, pondera-se abrir um pólo permanente em Lisboa.
Excelente ideia: colocar a capital portuguesa na rota das grandes exposições, é sem sombra de dúvida, uma ousada e oportuna aposta de quem comanda o rumo da Cultura neste país.

* Galeria D. Luís - Palácio Nacional da Ajuda