Invariavelmente, o despertador toca às vinte para as cinco da madrugada. E invariavelmente, Clarinha cumpre um ritual matinal que passa por vestir-se num tempo record, tomar o pequeno almoço e, mesmo antes de sair, espreitar a pequena que ainda dorme como um anjo.
Ainda a noite teima em roubar espaço ao dia e, de olhos perdidos no Tejo, ruma à Lisboa silenciosa.
Na capital, Clarinha tem o dia dividido em cinco. Cinco responsabilidades, cinco empregos. Nem preciso de lhe perguntar o "porquê". "Para pagar a casa e para dar o melhor à filha", confirma com uma pontinha de vaidade nos seus maiores "bens".
A manhã começa atarefada numa vivenda no Restelo. Depois toma conta de 'uma menina de olhos bonitos' que se parece à sua filha, mas que infelizmente não é, pois com ela apenas passa os fins de semana. A tarde prossegue com limpezas num banco e por fim em dois pequenos escritórios. O 'dia', para Clarinha, termina já passa das dez da noite. É quando chega a casa, beija a menina dos seus olhos e cai na cama.
Ao fim de semana refugia-se nas duas preciosidades que tem - a casa e a pequena - e foge à rotina com convívios familiares, "onde se come e se dança muito", confessa-me, com um sorriso de inequívoca felicidade.
Surpreende-me aquele sorriso. Não condiz com o seu quotidiano e não vai bem com os olhos de cansaço que apresenta.
Nem sequer com os pesados vinte oito anos que tem. Mas não há dia em que os seus dentes brancos não reluzam em contraste com a pele chocolate.
Quando olho ao meu redor e observo pessoas como a Clarinha, penso no que sou, no que tenho e no que é realmente indispensável ter, para sorrir com a mesma candura e espontaneidade que ela.