Domingo, Agosto 26, 2007

Recomenda-se

Ando a ler José Luís Peixoto.
Aliás, ando a devorar José Luís Peixoto [passo a expressão].
Sagaz, alucinante, agridoce e... genial.
Deliciosa escrita, que agita todos os meus sentidos.
"Hoje não" é a minha primeira refeição literária deste novato da literatura portuguesa que eu teimava em subestimar.
Mas é tal a satisfação... que seguir-se-ão, certamente, muitos mais repastos por conta do
chef Peixoto.

Sexta-feira, Agosto 24, 2007




"se te perguntarem por nós, sobre
que coisa fazemos quando estamos
juntos, diz a verdade

que deslocamos os cometas sem
querer, as estrelas para desenhos e
a lua garantindo o amor

diz a verdade sobre a intervenção
na cósmica escolha dos casais,
a obrigação de nos obedecer

não fosse o universo desentender quem
somos e favorecer a separação ou,
pior, o não nos havermos conhecido"

Paulo Praça/o7

Terça-feira, Agosto 21, 2007

O sorriso da Clarinha

Invariavelmente, o despertador toca às vinte para as cinco da madrugada. E invariavelmente, Clarinha cumpre um ritual matinal que passa por vestir-se num tempo record, tomar o pequeno almoço e, mesmo antes de sair, espreitar a pequena que ainda dorme como um anjo.
Ainda a noite teima em roubar espaço ao dia e, de olhos perdidos no Tejo, ruma à Lisboa silenciosa.
Na capital, Clarinha tem o dia dividido em cinco. Cinco responsabilidades, cinco empregos. Nem preciso de lhe perguntar o "porquê". "Para pagar a casa e para dar o melhor à filha", confirma com uma pontinha de vaidade nos seus maiores "bens".
A manhã começa atarefada numa vivenda no Restelo. Depois toma conta de 'uma menina de olhos bonitos' que se parece à sua filha, mas que infelizmente não é, pois com ela apenas passa os fins de semana. A tarde prossegue com limpezas num banco e por fim em dois pequenos escritórios. O 'dia', para Clarinha, termina já passa das dez da noite. É quando chega a casa, beija a menina dos seus olhos e cai na cama.
Ao fim de semana refugia-se nas duas preciosidades que tem - a casa e a pequena - e foge à rotina com convívios familiares, "onde se come e se dança muito", confessa-me, com um sorriso de inequívoca felicidade.
Surpreende-me aquele sorriso. Não condiz com o seu quotidiano e não vai bem com os olhos de cansaço que apresenta.
Nem sequer com os pesados vinte oito anos que tem. Mas não há dia em que os seus dentes brancos não reluzam em contraste com a pele chocolate.
Quando olho ao meu redor e observo pessoas como a Clarinha, penso no que sou, no que tenho e no que é realmente indispensável ter, para sorrir com a mesma candura e espontaneidade que ela.

Segunda-feira, Agosto 13, 2007

Biblioteca Municipal de Alcobaça - que serviço público?

Que Agosto é sinónimo de férias para a maioria dos portugueses, não há dúvida.
Mas não creio que férias signifique pôr de parte a cultura, a formação, a aquisição de conhecimento
ou mesmo a auto-recreação.
Contudo, parece ser esse o entendimento dos responsáveis pela Biblioteca Municipal de Alcobaça.
É que em pleno Agosto, quem desejar requisitar um livro, estudar, navegar na internet ou simplesmente ler o jornal, vê-se privado de o fazer naquelas instalações.
Pior, em vésperas de exames de 2a época, os estudantes da cidade não podem usufruir de um espaço que deveria efectivamente de prestar um serviço público, mas que ao invés disso resolve fechar portas.
Já não considero razoável que durante o ano encerrem às 2as feiras; de igual forma penso que aos sábados deveriam de ter um horário alargado (estar aberta de manhã). Mas mais grave que isso é esta nova medida de fechar portas na silly season. Caso para dizer que é uma decisão para lá de silly...
Compreendo que em período de férias o horário seja ajustado. Compreendo igualmente que haja limitação no acesso a alguns dos espaços, conforme ao número de colaboradores disponíveis. Mas não compreendo que durante um mês inteiro um espaço destes esteja encerrado.
Mais, constato que este comportamento não ocorre nas inúmeras bibliotecas municipais por esse país fora.
Como utente daquele espaço, espero sinceramente que esta medida não se repita e que de uma vez por todas se fixem os horários da BMA, que desde que reabriu já mudou inúmeras vezes de horário, facto que me leva constantemente a bater com o nariz na porta .

Quinta-feira, Agosto 02, 2007

Dias de Verão


Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é o nosso corpo

Tempo é de repouso e de festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é o nosso corpo

O destino torna-se próximo de legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem
Como se em tudo aflorasse eternidade
Justa é a forma do nosso corpo

[poema de Sophia de Mello Breyner Andresen e foto de Pedro Libório]