Sexta-feira, Julho 03, 2009

O Lado B


O título deste post bem podia ser o da habitual rubrica "Memórias... ou coisas que me fazem sentir vetusta", mas acabei por recorrer ao título de uma das músicas que mais gosto da "Companhia da Índias" de Rui Reininho e também a uma pitoresca experiência que recentemente a BBC proporcionou a um adolescente de 13 anos: deu-lhe o primeiro modelo do Walkman e só três dias depois o jovem se apercebeu que a cassete tinha dois lados...

Previsível. O lado B da cassete só mora na memória de gente que tenha nascido antes da década de 90. Aquelas caixas plásticas que habitavam as prateleiras lá da sala, ao lado das gigantescas aparelhagens, são um objecto desconhecido para aqueles que hoje vibram com o ipod e seus semelhantes. Foram revolucionárias na década de 60, quando passaram a permitir a gravação e reprodução de som e ainda hoje são uma marca indelével da nossa juventude.

A cassete (ou K7, uma abreviatura que só nós, nascidos antes dos 90..., descortinamos) que mais me marcou não foi a de um grupo ou cantor em especial. Era uma BASF gravada pela irmã primogénita, cujo lado B iniciava com uma mítica música que ainda hoje ecoa na minha memória - Money, dos Pink Floyd. Aquelas caixas registadoras e as respectivas moedas fizeram-se ouvir centenas e centenas de vezes, até ao dia em que a fita já não lia (dia esse em que devo ter levado um sermão, coisa que a memória não se encarregou, e bem, de guardar). O encanto das cassetes também passava pela sua efemeridade. Sabíamos bem que quanto mais as ouvíamos e quanto mais as reutilizávamos (gravando músicas sobre músicas), o som se ia deteriorando até ao dia em que era impossível ouvir o que quer que fosse. Aí, dava-nos um gozo tremendo puxar aquelas fitas todas para fora, esventrando a velhinha cassete, como que um ritual fúnebre que se mostrava inevitável ao constatar o seu fim.

Reconheçamos: todos nós fomos auto-didactas na gravação de cassetes, especialmente naqueles mixs que fazíamos escolhendo as músicas favoritas que passavam na rádio. Mas gravar as músicas que passavam na rádio implicava começar a gravar no tempo certo e terminar antes que o locutor abrisse a boca ou antes que os anúncios passassem, coisa que requeria muita concentração e perspicácia. E sorte também. Era preciso muito afinco até que a música ficasse perfeita, o que se traduzia num ritual de combinação entre as patilhas do Play, do Forward, do Rewind, do Pause e do Stop. Definitivamente, aquilo não era para todos. Muito menos para os jovens melómanos de hoje, que gozam de facilidades com que nós nunca sonharíamos e que jamais saberão o trabalhão que dá enrolar a fitas das cassetes com esferográficas.

A portabilidade da música só chegou com o Walkman da Sony, que acaba de comemorar 30 aninhos. Um tijolo que custava um balúrdio mas a cujas funcionalidades não resistíamos. Devo ter pedinchado por um durante uns bons anos e, se não estou em erro, quando por fim me agraciaram com o aparelho, já o CD começava a dar que falar... De qualquer das formas, foi bem-vindo. Ainda havia muita cassete à venda nas discotecas de então. Hoje, são obsoletas e não as encontramos em lado algum. Só mesmo aquelas que resistiram ao passar do tempo e que por isso guardamos religiosamente numa caixa. De vez em quando dá vontade de ir lá buscá-las e de recuperar sonoridades de outrora. Sucede que se o jovem não descobria o lado B, a nós não se nos afigura fácil encontrar aparelhos que ainda tenham deck's de leituras...

Terça-feira, Junho 30, 2009

Pina Bausch [1940-2009]

Conheci
Josephine Bausch em 'Hable con ella'. Depois descobri o seu prestígio internacional no mundo das artes. Há um ano atrás lamentei ter perdido por completo o festival organizado entre o CCB e o São Luiz, em torno de Pina Bausch. Hoje a dançarina e coreógrafa mais arrojada de que há memória, faleceu.

Segunda-feira, Junho 29, 2009

Ontem foi noite de...

Chic Corea @ Estoril Jazz

Podia ter sido noite de clássicos com Elton John no Pavilhão Atlântico ou de irreverência com Katy Perry no Campo Pequeno. Mas decidimo-nos por um programa mais comedido, longe de multidões agitadas. O domingo pede tranquilidade e por isso o rendez vous de ontem foi com um dos maiores vultos do jazz mundial, Chic Corea. O pianista norte-americano que já tocou com nomes como Miles Davis ou Herbie Hancock, pisou o palco do Centro de Congressos do Estoril para dois recitais a solo. Fomos ao das 21h30, com ligeiro atraso do artista que, logo compensou a espera.

Confesso que num contexto de jazz, prefiro juntar ao piano um baixo e uma bateria. Ainda assim, a genialidade de Chic Corea e a qualidade do seu Steinway & Sons imprimiram um tom enérgico às partituras, mesmo as que pendiam mais para o clássico. Claro está que o melhor ficou para o fim, quando convidou o público a juntar-se a ele com a voz. E não é que a sua simpatia cativou os presentes e quase todos fizeram ouvir a sua voz? Só os verdadeiros artistas têm este tipo de dom...

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Elogio à Elegância


No dia em que estreia em Portugal "Coco Avant Chanel", um filme sobre Gabrielle Coco Chanel, a senhora tem um merecido destaque neste meu cantinho. Assim como que uma homenagem pelo seu inestimável legado à Mulher. Ainda hoje a senhora inspira gente como eu, que gosta de vestir bem sem ser escrava da moda. Não será por acaso que hoje pela manhã optei pela camisa branca e fato preto, com o imprescindível colar de pérolas. Por vezes, menos é mais.

Domingo, Junho 21, 2009

Ontem foi noite de...

Jordi Savall @ Nave Central do Mosteiro de Alcobaça

O encerramento do XVII Cistermúsica, Festival de Música de Alcobaça, levou centenas até à imponente Nave Central do Mosteiro para ver e ouvir Jordi Savall, catalão que é considerado um dos melhores intérpretes de viola da gamba e um grande divulgador da música antiga.

A viola da gamba é desconhecida por muitos, mas Jordi Savall conhece-a como ninguém e desde muito novo vem dando a conhecer ao Mundo as potencialidades deste instrumento musical, tendo já gravado quase duas centenas de CD's e arrecadado um sem número de prémios e galardões. De todos, destacar-se-á a indicação de "Artista pela Paz" no âmbito de Embaixadores da Boa Vontade da UNESCO e a nomeação, este ano, pela União Europeia, de Embaixador do Ano Europeu da Criatividade e da Inovação.

Ontem, o virtuoso Savall tocou para a multidão de gente que se arrastou até ao Mosteiro e cativou todos pela sua mestria. Ao longo de hora e meia tocou mais de uma dezena de partituras(entre as quais a conhecida Allemande de Bach) e regressou ainda para dois encores (!!). Os aplausos, esses, choveram.

PS - Para quem não pôde ir, há sempre hipótese de procurá-lo nas prateleiras de uma loja da especialidade ou, em alternativa, recorrer ao imensurável Youtube. Garanto que vale a pena.

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Saboreando o passado


Os quiosques de Lisboa estão de volta. E a ideia é de louvar. Na Praça Camões ou no Princípe Real já se pode saborear a tradição nos Quiosques de Refresco. Parece que está na moda recuperar o passado e revivê-lo por alguns momentos, sempre que o quotidiano nos permita. Numa tarde destas, de passagem, não resisti e pedi uma groselha. Atendimento atencioso: a menina, à medida que servia a bebida que me catapulta para a minha infância, explicava que o xarope era caseiro porque os que se comercializam hoje têm muitos acúcares. Feita a prova, sucede que o sabor está longe de ser aquele a que as minhas papilas gustativas estavam habituadas. E a cor, essa também está a milhas daquele escarlate que coloria as tardes de Verão noutros tempos. Valeu a intenção de livrar os clientes da excessiva ingestão de acúcar, mas assim não tem a mesma piada. Para a próxima fico-me pela Limonada Chic ou provo a Orchata ou o Mazagran. Afinal, o que não falta por ali são sabores do passado. Alguém se atreve a provar a sanduíche de torresmos?!

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Hoje foi noite de...

Messiaen Quartet @ Convento de Coz

O Cistermúsica decidiu (e bem) descentralizar esta que é a sua 17.ª edição e levou até ao Convento de Santa Maria de Coz um quarteto de cordas e piano que veio da Rússia e arrecadou o prémio do 1.º Concurso de Música de Câmara de Alcobaça - os Messiaen Quartet.

O nome do grupo prende-se com a obra de Olivier Messiaen, compositor francês (1908-1992) que compôs música de câmara, música para órgão, piano e até uma ópera. A sua obra mais famosa é o Quarteto para o Fim do Tempo, composto enquanto prisioneiro durante a II Grande Guerra e precisamente a obra que o grupo russo levou até ao festival de música da cidade de Alcobaça que este ano se dedicou ao imensurável universo da música de Câmara.

No fim da tarde de domingo, depois de cumprido o dever cívico e longe do ruído dos resultados eleitorais, cumpri com o meu direito à paz ao desfrutar de um inebriante concerto naquele local histórico, onde um piano, um clarinete, um violino e um violoncelo reproduziram divinalmente a obra de oito andamentos que Messiaen criou, inspirado no melodioso Apocalipse de São João.

Sábado, Junho 06, 2009

Já cheira a Lisboa

"O vaso de manjerico
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho..."
Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto Popular
*foto de luispedron

Quinta-feira, Junho 04, 2009

Ontem foi noite de...

AC/DC @ Estádio de Alvalade

Estão longe de constar no meu top de preferências musicais, mas são um grupo histórico - cujos hits até sou capaz de cantarolar - e são famosos por dar concertos memoráveis. Ontem fui arrastada até ao estádio dos lagartos por alguém mais fã que eu, mas vim de lá convencida.

Em palco, os tipos (sexagenários, saliente-se!) são imparáveis. Um vai-vém constante num cenário extravagante - uma locomotiva em palco, uma gigante boneca insuflável, um enorme sino para introduzir "Hells Bell", um palco ao centro do relvado, canhões, fogo de artifício - do princípio ao fim foi sempre a surpreender. Durante duas horas o incansável guitarrista não parou, fez até um strip e levou ao rubro o estádio com os seus solos de quase 20 minutos. No relvado e nas bancadas pedia-se sempre mais.

Foi só mesmo o espectáculo que me prendeu até ao fim, já que no relvado o caos instalava-se e estragava a festa a alguns... Lá sobrevivi (não sem antes levar uma murraça no olho, dada a confusão instalada) e apesar de tudo, regressei a casa sem uma pontinha de desapontamento.

Quinta-feira, Maio 21, 2009

Recomenda-se

[Amália Hoje ]

Recomendo eu e muita gente, com certeza. Não é por acaso que este projecto lidera o top de vendas nacional. "Amália hoje" nasceu com Nuno Gonçalves (o alcobacense que comanda os The Gift), Sónia Tavares (a voz dos The Gift), Fernando Ribeiro (o senhor dos Moonspell) e Paulo Praça (um habitué nestas coisas da pop), quatro nomes do actual panorama musical português que se juntaram para cantar os versos que outrora cantou a eterna diva portuguesa.

Ousadia não lhes parece ter faltado e o resultado está condensado neste disco que dá vontade de ouvir até à exaustão. Ali canta-se e reinventar-se o fado de Amália, conferindo-lhe um tom de pop que - por incrivel que pareça - não se estranha, e desde logo se entranha.

Da imponente voz de Sónia Tavares até à doce (quem diria?!) voz de Fernando Ribeiro, com o toque mais pungente de Paulo Praça, o CD é uma saborosa descoberta, sendo que o final é (emocionalmente falando) o mais arrebatador, com "Grito" gritado pela vocalista dos The Gift.