o sol maravilhoso que raia por estes dias tem sido para mim uma espécie de terapia. eu sei que venho de África, logo, era suposto ter os meus níveis de vitamina D em alta. dá-me ideia, porém, que este sol do hemisfério norte tem sobre mim um especial efeito terapêutico e reconfortante. talvez por estar em casa, talvez porque contrasta com o frio que se faz sentir e, apesar deste, aquece-me corpo e alma. bastam uns minutos de exposição e sinto-me renovada, com energia para enfrentar um novo dia. dias que não têm sido propriamente fáceis; dias cuja luminosidade tem contribuído para afastar as ameaças de um céu pincelado de cinzento. bendito seja o sol deste meu Portugal, o sol de Janeiro, este sol de Inverno.
Domingo, 29 de Janeiro de 2012
Sábado, 21 de Janeiro de 2012
os Outros
quantas vezes não julguei uma pessoa sem antes conhecê-la? muitas, as suficientes para chegar à conclusão que esse é um exercício viciado, que não é justo nem faz sentido deixarmo-nos levar por pré-conceitos, por atitudes descontextualizadas, por aparências físicas e afins. eu sei que até há quem tenha a habilidade de tirar um «raio-x» completo a um desconhecido e elaborar depois um perfil psicológico com base num mero soslaio, mas eu não tenho esse dom e acabo sempre por reconhecer que não faz sentido embirrar com X, desconfiar de Y ou maldizer W apenas porque há qualquer coisa nessa pessoa que me leva a precipitadas (e frequentemente erradas) ilações. eu própria colecciono antipatias por gente que nunca chegou a conhecer-me. gente que embirra comigo porque gosto de rir alto, porque tenho um nariz franzino ou simplesmente porque sim. e se repudio essas preconceitos nos outros, passei também a conter-me sempre que me sinto levada a fazer retratos precipitados ou rótulos infundados. vem isto a propósito da genial ideia do fotógrafo francês Christian Boltanski, que recolheu fotografias de criminosos e vítimas de crimes e, depois de as baralhar, não conseguiu identificar uns e outros. ou seja, sem contextualização e sem realmente conhecermos as pessoas não podemos saber, através dos seus rostos e expressões, quem são e o que são. no dia a dia tenho procurado fazer precisamente o mesmo, evitando julgamentos pouco ponderados. os outros nem sempre são quem parecem ser. e, melhores ou piores que nós, só poderemos saber quem os outros são se antes nos livrarmos dos nossos preconceitos.
*foto minha da obra Detective (1972), de Christian Bolstanski, Art Institute of Chicago
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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
À Deriva
Simples, mas bonito, este filme de 2009 foge completamente às temáticas do cinema brasileiro a que estamos habituados e, só por isso, despertou-me à atenção. Foca um núcleo familiar e as relações que dele emergem, mas não só, toca em temas como a infidelidade, o alcoolismo e o despertar para a sexualidade da jovem Filipa (a bela Laura Neiva). A relação desta com o pai (o brilhante Vicent Cassel, a falar português como se fosse a sua língua-mãe) é o ponto de partida e também o ponto de chegada, mas não sem antes se assistir a uma inevitável fragmentação familiar. O cenário, no litoral paradisíaco de Búzios, assim como o figurino (fabuloso, assinado pelo estilista Alexandre Herchcovitch) complementam a beleza do filme (já para não falar da presença de Camille Belle). O veterano Fernando Meirelles deu uma mão ao director Heitor Dhalia e o resultado é um filme que vem refrescar o cinema brasileiro e, por isso, a não perder. De sublinhar ainda a surpreendente falta de recursos a tecnologias - não se vêm telemóveis, televisores, computadores e praticamente nem automóveis. Dá ideia que se recua a umas décadas atrás, àquelas férias de Verão em que combinávamos com pais e amigos sem necessidade de usar telefones, em que preteríamos a tv pelas brincadeiras à beira-mar e em que tudo era tão mais simples e tão mais idílico.
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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012
The Gift @ Cine Teatro de Alcobaça
Não podia faltar ao arrancar da digressão dos The Gift pela Península Ibérica, com início no Cine Teatro da cidade que os viu nascer, cidade essa que é minha também. Com dois álbuns fresquinhos - Primavera e Explode - na bagagem, o grupo alcobacense que não tarda nada perfaz 20 anos de existência (!!!) lança-se pelas salas de Portugal e da vizinha Espanha antes de uma paragem (obrigatória, devido à gravidissíma Sónia). O início da digressão por terras de Cister só pode augurar coisas boas, pois foi um excelente concerto num ambiente muito intimista. Descrevo-o como um concerto a dois andamentos, um primeiro concentrado no álbum Primavera, uma estação que ali se revela algo taciturna (não será por acaso que a capa do álbum é cinzenta e absolutamente melancólica), mas cheia de intensidades. Destaque para a belíssima La Terraza, porventura a minha favorita, bem assim como Les Tulipes de Mon Jardin (letra tão simples e tão harmoniosa) e Meaning of Life. A música que dá nome ao álbum, também ela fabulosa, fechou em grande uma primeira parte melódica e melancólica. Depois, veio Explode e a sala explodiu ao som do colorido e vibrante álbum que marcou o ano musical de 2011. The Singles, Race is Long, RGB e ainda uma passagem por outros álbuns da banda, com paragem no fabuloso Driving you slow. A noite aquecia no palco mas a sala não ficou atrás. No fim, muito aplausos para o grupo e sobretudo para a vocalista que, grávida do pequeno Fausto, não se mostrou diferente daquilo a que sempre nos habituou. E para rematar em grande, ainda tive direito a um miminho... algum dia havia de ser!
Domingo, 15 de Janeiro de 2012
Qual filha pródiga
Estou de volta, minha gente. Não me lembro de ter estado tanto tempo sem escrever por aqui, mas o fim de 2011 e o início de 2012 foram algo atribulados. Um grande susto que afinal (e felizmente) acabou por não passar disso; uma ou outra revelação inesperada (a família vai aumentar.... shhhhh!); e, pelo meio, uns dias fantásticos, em viagem, dos quais vos porei a par assim que tenha oportunidade. A propósito, nos últimos anos tenho tido o privilégio de poder viajar imenso e de trazer a bagagem cheia de memórias, novas experiências, novos olhares e conhecimentos.Confesso que às vezes, e sobretudo nestes tempos adversos, sinto algum desconforto quando anuncio as minhas viagens por esse mundo fora, e até quando partilho relatos e experiências das mesmas, ainda que sem qualquer intuito de ostentação. A verdade é que tenho experienciado vivências tão enriquecedoras que sinto necessidade de partilhá-las com outros, e se a vida me tem permitido tudo isto, só tenho é que me sentir abençoada. É certo que a cada dia que passa sinto-me uma privilegiada por tudo o que tenho, mas sobretudo pelos amigos e pela família, a de sempre e aquela que estou a construir. E se é verdade que adoro andar por esse Mundo fora, não é menos verdade que adoro regressar a casa, aos meus, às coisas simples deste meu país, esta «nesga de terra debruada de mar», como dizia Torga, da qual me sinto mais apaixonada à medida que dela me afasto. Não há dúvida que valorizamos muito mais as coisas quando delas sentimos falta, e por muito que viaje, acreditem, não há nada como a nossa pátria, o nosso berço, o nosso lar, os nossos. E que bem sabe estar de volta.
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
Um doce Natal
Bem sei que este ano o espírito natalício da maioria dos portugueses anda pela hora da morte, inversamente ao meu, já que ao contrário do ano passado o Natal coincide precisamente com a reunião familiar em solo luso. Estou, por isso, mais entusiasmada com estes dias do que nunca. Espero que o vosso Natal seja também sinónimo de reencontros, afectos, sabores, sorrisos, doçuras e afins. E que o ano de 2012 vos corra lindamente! Um grande beijinho a todos os que me acompanharam neste ano que agora finda... espero reencontrar-vos por aqui em 2012.
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011
Maputo | Moçambique
Um destes fins de semana fizémo-nos à estrada e rumámos até Maputo, para conhecer a capital de Moçambique, outrora Lourenço Marques. O percurso de carro demora aproximadamente seis horas, mas é muito agradável pois de um lado e do outro da estrada não faltam vistas magníficas, pintadas de verde e de perder de vista. Passámos junto ao Kruger (que ainda não visitámos...) e junto a enormes plantações de bananas e outras frutas abundantes por este lados.
Pelo caminho, muitos carros apinhados de gente e de tralha, a lembrar que isto é África! E depois, a caótica fronteira, umas boas-vindas já com a língua portuguesa a fazer-se ouvir.
E já em Moçambique, é um pulinho até à capital. Mesmo para quem, como eu, nunca conheceu Lourenço Marques, dá para ter a noção que a cidade já não é o que foi. Passeios destruídos, edifícios em avançado estado de degradação, muito lixo, muita publicidade e alguma confusão não fazem de Maputo uma cidade propriamente bonita. Mas ainda tem os seus encantos, há que saber procurá-los. Um deles é a lindíssima estação de comboios.
Este belíssimo edifício não foi projectado por Gustave Eiffel, ao contrário do que muitas vezes se diz, mas sim por um trio de arquitectos portugueses - Alfredo Augusto Lisboa de Lima, Mário Veiga e Ferreira da Costa. Tem mais de cem anos e foi considerado (com justiça) por várias revistas como uma das mais belas estações de comboios do Mundo.
Esta sim, tem a assinatura de Gustave Eiffel. A Casa de Ferro que mora no centro de Maputo desde 1892 foi encomendada por um governador português e nunca chegou a ser habitada pelo próprio. Porventura, por ser pouco aconselhável viver numa casa feita totalmente de ferro num país quentinho como Moçambique... Não deixa, contudo, de ser uma pérola no meio da cidade! E mesmo ao lado, à entrada do Jardim Tunduru, outra maravilha, um arco Neo-Manuelino.
Não muito longe, a Catedral de Nossa Sr.ª da Conceição, também ela com assinatura portuguesa. A sua enorme nave impressiona, bem assim como a torre, que tem 61 metros.
Outro edifício bonito a não perder é o Museu de História Natural. Bonito por fora, interessante por dentro e relativamente bem cuidado, é um exemplo da nossa arquitectura Neo-Manuelina a marcar indelevelmente a nossa presença por aquelas terras.
Pela cidade fora há mais edifícios merecedores da nossa atenção, uns mais cuidados que outros, mas todos eles a contar a História. Cinemas, Escolas, Museus, edifícios residenciais ou governamentais, há para todos os gostos e com as mais variadas inspirações.
Museu Nacional de Geologia
Edifício da Rádio Moçambique
Escola Industrial 1º de Maio
Museu Nacional da Moeda, o edíficio mais antigo da cidade
Igreja de Santa António da Polana, sem dúvida... diferente!
Cine África
Teatro (hoje Cinema) Gil Vicente
Outro edifício mítico é o Hotel Polana, construído em 1922, albergou as mais altas individualidades de então bem como os espiões dos anos 30. Hoje, e apesar de restaurado, ainda conserva um ambiente acolhedor, luxuoso e com indeléveis traços coloniais. As vistas, essas, são soberbas.
Outra infra-estrutura marcante da cidade é o seu Forte. A Fortaleza da Nossa Senhora da Conceição, construída entre 1851 e 1867 está em óptimo estado de conservação e à data da nossa visita albergava uma feira de artesanato.
E por falar em artesanato, mesmo ali ao lado o Mercado do Pau assenta arraiais e junta muitos vendedores e compradores, ou simplemsnte curiosos. É claro que eu não resisti às capulanas e trouxe uma comigo, ainda sem destino certo mas talvez para um vestido africano!
Imperdível é também percorrer a Marginal de Maputo. Entre o mar e a cidade há mil cores, gentes animadas, música, bancas, restaurantes improvisados e muito mais.
No fim da Marginal fica o mais afamado dos restaurantes de Maputo, o Costa do Sol. Uma instituição gastronómica que surgiu em 1938 e ainda hoje serve o melhor peixe e marisco local, numa varanda com muito ambiente e um staff simpático.
Outro local com sabores, cheiros e cor é o Mercado Janet, o mercado da fruta. Imperdível para quem gosta de apreciar o bulício típico deste mercados e para quem tem uma atracção por cor e fruta, como eu!!
Por fim, as vistas sobre a cidade. Vale a pena subir a um dos prédios mais altos (no caso foi um 33º andar) e ver a cidade sob outras perspectivas!
Não posso terminar sem partilhar duas imagens que são vestígios curiosos da presença portuguesa em Maputo, outrora Lourenço Marques:
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