
O título deste post bem podia ser o da habitual rubrica "Memórias... ou coisas que me fazem sentir vetusta", mas acabei por recorrer ao título de uma das músicas que mais gosto da "Companhia da Índias" de Rui Reininho e também a uma pitoresca experiência que recentemente a BBC proporcionou a um adolescente de 13 anos: deu-lhe o primeiro modelo do Walkman e só três dias depois o jovem se apercebeu que a cassete tinha dois lados...
Previsível. O lado B da cassete só mora na memória de gente que tenha nascido antes da década de 90. Aquelas caixas plásticas que habitavam as prateleiras lá da sala, ao lado das gigantescas aparelhagens, são um objecto desconhecido para aqueles que hoje vibram com o ipod e seus semelhantes. Foram revolucionárias na década de 60, quando passaram a permitir a gravação e reprodução de som e ainda hoje são uma marca indelével da nossa juventude.
A cassete (ou K7, uma abreviatura que só nós, nascidos antes dos 90..., descortinamos) que mais me marcou não foi a de um grupo ou cantor em especial. Era uma BASF gravada pela irmã primogénita, cujo lado B iniciava com uma mítica música que ainda hoje ecoa na minha memória - Money, dos Pink Floyd. Aquelas caixas registadoras e as respectivas moedas fizeram-se ouvir centenas e centenas de vezes, até ao dia em que a fita já não lia (dia esse em que devo ter levado um sermão, coisa que a memória não se encarregou, e bem, de guardar). O encanto das cassetes também passava pela sua efemeridade. Sabíamos bem que quanto mais as ouvíamos e quanto mais as reutilizávamos (gravando músicas sobre músicas), o som se ia deteriorando até ao dia em que era impossível ouvir o que quer que fosse. Aí, dava-nos um gozo tremendo puxar aquelas fitas todas para fora, esventrando a velhinha cassete, como que um ritual fúnebre que se mostrava inevitável ao constatar o seu fim.
Reconheçamos: todos nós fomos auto-didactas na gravação de cassetes, especialmente naqueles mixs que fazíamos escolhendo as músicas favoritas que passavam na rádio. Mas gravar as músicas que passavam na rádio implicava começar a gravar no tempo certo e terminar antes que o locutor abrisse a boca ou antes que os anúncios passassem, coisa que requeria muita concentração e perspicácia. E sorte também. Era preciso muito afinco até que a música ficasse perfeita, o que se traduzia num ritual de combinação entre as patilhas do Play, do Forward, do Rewind, do Pause e do Stop. Definitivamente, aquilo não era para todos. Muito menos para os jovens melómanos de hoje, que gozam de facilidades com que nós nunca sonharíamos e que jamais saberão o trabalhão que dá enrolar a fitas das cassetes com esferográficas.
A portabilidade da música só chegou com o Walkman da Sony, que acaba de comemorar 30 aninhos. Um tijolo que custava um balúrdio mas a cujas funcionalidades não resistíamos. Devo ter pedinchado por um durante uns bons anos e, se não estou em erro, quando por fim me agraciaram com o aparelho, já o CD começava a dar que falar... De qualquer das formas, foi bem-vindo. Ainda havia muita cassete à venda nas discotecas de então. Hoje, são obsoletas e não as encontramos em lado algum. Só mesmo aquelas que resistiram ao passar do tempo e que por isso guardamos religiosamente numa caixa. De vez em quando dá vontade de ir lá buscá-las e de recuperar sonoridades de outrora. Sucede que se o jovem não descobria o lado B, a nós não se nos afigura fácil encontrar aparelhos que ainda tenham deck's de leituras...









